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    La Dolce Vita

    Faz tempo que não "blogo"... Para matar a saudade, estou postando uma das colunas que tenho escrito no site da Carta Capital, reunidas sob o chapéu "La Dolce Vita": comida, boas notícias e charlatanismo light...

    Reproduzo abaixo a nota inicial com a idéia central da coluna e o último dos textos publicados. Quem quiser ler mais, vá até o http://www.cartacapital.com.br/app/colunistas_interna.jsp?a=2&a2=5&i=51

    ***

    Nota inicial

    Quando o pessoal da revista me propôs escrever uma coluna no site, logo imaginei o espaço como um oásis virtual. Um lugar onde, na aridez de boas notícias, os leitores pudessem se refugiar, tomar um ar fresco. 

    Daí o título “La Dolce Vita”. Expressões assim sempre me encantaram: la dolce vita, la buona vita, il dolce far niente, joie de vivre... Parecem condensar algo que me é muito caro e acredito que à maioria de vocês também: a vida é um bem precioso, é única, e existe pra gente ser feliz. Ou pelo menos tentar. 

    As doses de charlatanismo servirão para curar almas atormentadas com problemas minúsculos, e serão ministradas sem o menor rigor ou fundamento científico. Um espaço tipo coração de mãe, onde cabe de tudo um pouco: viagens, gastronomia, cinema, literatura, saúde, humor. Só não me venham com chorumelas. Nem dietas.

    ***

    Desbeauvoirizar é preciso

     

    Quando eu tinha 17 anos, uma amiga querida me emprestou A Convidada, o primeiro romance de Simone de Beauvoir. Até hoje carrego o livro comigo, na memória e literalmente (foi mal!). Venho de uma família nos moldes tradicionais, onde o pai trabalhava fora e a mãe era “do lar”. Nunca quis o mesmo para mim. Aquele futuro de dona-de-casa me dava calafrios...

    Mas o mundo de Simone tampouco me seduziu. A figura da mulher super-intelectualizada que pouca ou nenhuma importância dá ao amor e à realização de ter filhos me parecia incompleta. Quando li, então, o trecho em que a protagonista do livro mostra uma profunda frustração por não saber dançar, tive a certeza de que havia alguma coisa errada ali.

    Françoise observava seu homem, Pierre, dançando com uma pupila. Uma música de se dançar junto, como tinha antigamente. O casal rodopiava pelo salão enquanto a heroína/Beauvoir, encostada num canto, se remoía diante da própria incapacidade de aceitar o pedido de um cavalheiro para acompanhá-lo numa contradança... Eu, hein?

    Fico pensando se esse negócio de dançar separado não veio junto com a emancipação feminina, nos anos 60. Algo do tipo: “não toca em mim sem permissão!” É uma delícia dançar “solto”, mas dançar de rosto colado tinha lá sua magia, não tinha, não? Perdido o hábito, hoje em dia casais têm que fazer aulas para aprender a bailar enlaçados novamente. A dificuldade deve ser maior, creio, para as mulheres, que têm de reaprender a se deixar conduzir pelo homem.

    Talvez, naquele cantinho do salão, Simone estivesse refletindo que deixar-se conduzir, de vez em quando, não é tão ruim. Nem faz a mulher perder seu lugar. Andar de braço dado. Deixar que o homem ajude na hora de atravessar a rua. A carregar os pacotes. A chamar o garçom. Que que tem?

    Lembro que quando casei com o pai do meu filho mais velho, tudo era uma questão de honra, de defender meu espaço. Servi-lo, por exemplo, na hora das refeições. Nem pensar! Aquilo me fazia sentir como a minha mãe... O tempo passou e agora isso me parece uma atividade extremamente generosa. Cozinhar, dar de comer a quem a gente ama, ou até pregar um botão numa camisa, não nos faz menos independentes ou “inferiores”. É bobagem.

    Meu filho tem 17 anos. Adoro quando ele gosta de algo que escrevi, adoro quando vejo que tem admiração intelectual por mim, que curte meus gostos literários, cinematográficos e musicais. Mas fico toda orgulhosa quando me olha (e faz isso desde os quatro) depois de comer e diz: “Mamãe, você é ótima cozinheira!”

    Vou falar uma coisa para as mães modernas, que se sentem vitoriosas diante do machismo ao revelar que não sabem nem fritar um ovo: não há nada na maternidade que dê mais prazer do que preparar algo especial para o filho. Nem que seja um ovo mesmo, bem fritinho na manteiga, para que mais tarde ele possa alardear por aí que o seu é o melhor do mundo.

    Simone de Beauvoir e as primeiras feministas foram geniais ao provar que homens e mulheres possuíam potencial idêntico, que um não era superior ao outro como se chegou a acreditar, inclusive com apoio pseudocientífico. Graças a elas, temos hoje, mulheres, a liberdade estimulante de enfrentar os homens em discussões de alto nível.

    Duelos intelectuais entre os sexos são algo divertidíssimo. Principalmente quando conseguimos derrotar o contendente masculino. Uhu! Também gosto da idéia, popularizada por Simone e Jean-Paul Sartre, de morar sob tetos diferentes. Voltei a me casar, mas confesso ainda ter dúvidas se viver junto funciona mesmo. É que enquanto a rotina é um veneno, a saudade é um tempero tão saboroso para o amor...

    Enfim, não pretendo aqui manifestar desrespeito pela militância feminista ao longo dos últimos 40 anos. Elas foram pioneiras e precisaram ser bravas para enfrentar tudo aquilo que ficou para trás. Mas não há dúvida que algumas exageraram na dose. Para mim, não tem nada a ver igualdade de direitos entre os sexos com igualdade entre os sexos. Somos diferentes. Temos necessidades diferentes. E outra ancestralidade.

    Ser profissional, destacar-se no trabalho, ganhar salários compatíveis com o cargo e não com o gênero, galgar posições na política, não ser chamada de “dona Maria” ao volante... Tudo isso é ótimo. Ser mãe, mulher e amante, também. Deus me livre de não saber dançar!

    Fico até desconfiada que, quando dizia “hay que endurecer pero sin perder la ternura”, Che Guevara não se referia aos revolucionários do planeta, mas às feministas...



    Escrito por cynara às 21h52
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    O mago que filma

    Poxa, confesso que ando sem tempo de aparecer aqui. Esta entrevista com Alejandro Jodorowsky saiu na edição de 17 de novembro da Carta Capital e só estou postando agora... Bom, antes tarde do que nunca! Enjoy.

    ***

     

    O mago que filma

     

     

    Chileno radicado em Paris, Alejandro Jodorowsky é tão cult, mas tão cult que você provavelmente nunca ouviu falar dele. Ou não se lembra mais onde escutou este sobrenome tão sonoro, de origem russa. Aos 78 anos, Jodo, como dizem os íntimos, é um multimídia que sempre circulou pelas mais variadas expressões artísticas. Os fãs de quadrinhos, por exemplo, vão avivar a memória ao associá-lo ao francês Moebius, de quem foi roteirista na série Incal (publicada no Brasil pela Devir). Também foi parceiro de Arno e Milo Manara.

    No teatro, criou, ao lado do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, o Movimento Pânico, em 1962. Foi numa peça de Arrabal que Jodorowsky se inspiraria para seu segundo filme, Fando e Lis, de 1967, cuja violência causou protestos ferozes no México, quando foi lançado. Discípulo de Marcel Marceau na juventude, criaria para o mestre francês diversos espetáculos de mímica. No mês passado, publicou uma HQ, Pietrolino, em homenagem a Marceau, morto em setembro. Jodorowsky é ainda um homem místico, autor de mais de uma dezena de livros, entre títulos de ficção e outros dedicados à psicomagia, terapia que inventou.

    Mais difícil de ser reconhecida é a faceta principal do bruxo, a de cineasta. Rompido com o produtor Allen Klein, nas últimas duas décadas era quase impossível, a não ser em versão pirata, assistir a seus filmes mais célebres, todos fortemente influenciados pelo surrealismo, como El Topo (1970) ou Santa Sangre (1989). Era. A partir de terça 20, estréia no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) no Rio, e depois em São Paulo e Brasília, o Festival Jodorowsky. Jodo virá pessoalmente para o evento, fará palestras e lerá o tarô para os fãs. Um programa imperdível, mas se quer um conselho, jamais duvide da psicomagia.

    De Paris, Jodorowsky falou a CartaCapital.

     

    CartaCapital – Seus filmes estiveram muito tempo impedidos de circular por causa de uma briga com o produtor. Incomoda-o que só agora seu trabalho como cineasta volte a ser reconhecido?

    Alejandro Jodorowsky – Não me dediquei só ao cinema, os caminhos da arte são muitos. Quando se acredita no que se faz, o tempo não conta, nem a morte. Uma paciência infinita passa a habitá-lo. Não me doeu ser ignorado, não me alegra ser reconhecido.

     

    CC – El Topo é considerado um precursor do cinema underground, de baixo orçamento. Diz-se que abriu caminho para nomes como o do cineasta David Lynch. O senhor concorda com essa avaliação ou lhe parece soberba?

    AJ – Concordo. El Topo inaugurou uma forma de cine independente que se chama midnight movies. Isto está inscrito na história do cinema. Respeite-me, por favor.

     

    CC – É verdade que recomenda estar sob efeito de alguma droga para assistir El Topo?

    AJ – Eu não me drogo nem recomendo drogar-se. O que aconteceu nos anos 60 é que todos os jovens americanos fumavam maconha. À meia-noite, quando exibiam meu filme no Teatro Elgin, a sala estava submersa em uma nuvem de fumaça de marijuana. Quando estreou A Montanha Sagrada (1973), não havia fumaça, mas não porque não estivessem drogados, e sim porque então consumiam cocaína e LSD.

     

    CC – Quais foram suas maiores influências cinematográficas?

    AJ – Sou um grande espectador de cinema. Vejo toda noite pelo menos um filme, e tem sido assim durante quase meio século. Admiro não só Federico Fellini, Luis Buñuel e Glauber Rocha, como também muitos outros, ocidentais e orientais. Mas nenhum deles me influenciou. Quis ser diferente de todos e fui.

     

    CC – O senhor ainda usa o método Arica para preparar os atores, com ioga, zen-budismo, tarô, I Ching e drogas alucinógenas? Ou isso faz parte de sua lenda?

    AJ – Faz parte da lenda. Houve uma época em que acreditei vencer o ego dos atores. À custa de grandes problemas, me dei conta de que o ego de um ator, além de cheirar mal, é indestrutível. Não há método, por mais sábio que seja, que possa arrancar os atores de seu umbigo.

     

    CC – O senhor diz que seus filmes falam de um inconsciente a outro. Como é possível essa troca?

    AJ – É algo que se realiza para lá do intelecto. Não se tratam de palavras, mas de sensações inefáveis. Como quer que eu explique isso?

     

    CC – Li em um artigo publicado no Chile que alguns o consideram um mestre e outros um louco de dar nó... E o senhor, que pensa de si mesmo?

    AJ – Para que Jodorowsky pensasse sobre Jodorowsky teria que dividir-se em dois: o que pensa e o que é pensado. Na verdade, sinto que sou um. Portanto, não sei quem sou.

     

    CC – Como anda a produção de seu novo filme, King Shot (previsto para 2009)? Do que se trata?

    AJ – Quatro produtores, um canadense, um espanhol, um francês e um sérvio me pagaram um dólar pela preferência, até setembro, de produzir King Shot. É um spaghetti-gângster metafísico. O cinema vive de projetos que nunca se realizam, mas também existem os milagres.

     

    CC – De que vive o senhor? Dos quadrinhos, livros, filmes ou das conferências que faz sobre psicomagia e criatividade?

    AJ – Não seja indiscreta. Não meta o nariz nos meus bolsos.

     

    CC – Que valor o senhor dá ao dinheiro?

    AJ – Muito menos do que a senhora dá a ele.

     

    CC – E a política, lhe interessa?

    AJ – Nunca acreditei nas revoluções políticas. Sempre preferi as re-evoluções poéticas.

     

    CC – A psicomagia é a sério ou é uma brincadeira? As consultas online em seu site são muito engraçadas...  

    AJ – Não banque a jornalista cínica. A senhora sabe muito bem que a psicomagia é uma técnica terapêutica que curou, grátis, uma grande quantidade de pessoas. Está me confundindo com um farsante? Escreveria livros, traduzidos a vários idiomas, só para brincar? Não fique chateada, mas devo dizer-lhe que a propósito das coisas mais sérias e honradas, as crianças e os ignorantes riem.

     

    CC – O senhor ainda faz cirurgias psicoxamânicas?

    AJ – Em muito poucas ocasiões. Agora quem as faz é meu filho Cristóbal, que acaba de publicar um livro, O Colar do Tigre, narrando essas experiências incríveis.  

     

     

    CC – Há um tópico no site dedicado a publicar as boas notícias que o senhor recolhe nos jornais. Mas faz um ano que não aparece nenhuma! Elas se acabaram?

    AJ – As que não se acabam são as más notícias... Parei de dar as boas na internet porque me chamaram em Madri para apresentá-las no telejornal da noite (pelo canal Telemadrid). Fizeram tanto sucesso que vão publicá-las num livro.

     

    CC – No documentário feito sobre o quadrinista Moebius (Moebius Redux), o senhor diz que Stan Lee, criador do Homem Aranha, é apenas um comerciante, e que os Estados Unidos não o interessam em nada. Nem a geração beatnik?

    AJ – Os poetas beatniks foram interessantes por ser os primeiros a sair do armário e proclamar sua homossexualidade. Atualmente esta poesia está caduca pelo excesso de conteúdo político. Desgraçadamente, a hipócrita economia norte-americana se converteu no câncer do planeta.

     

    CC – O que o senhor acha que aconteceu com os Estados Unidos dos anos 60 para cá? Pioraram muito, não?

    AJ – É um país fundado por bandidos. Nunca mudou. Os ciclones, maremotos, tufões, dilúvios, furacões, incêndios, secas e as invasões de insetos e vírus estão se encarregando de castigá-los.

     

     

    CC – O senhor está muito conservado aos 78 anos, parece bem mais jovem. Qual é o segredo?

    AJ – Confesso que em fevereiro vou fazer 79... O segredo é não se aferrar a hábitos, a dependências ou a idéias. Ser um aluno constante, aprendendo sem cessar. E sobretudo desenvolver a atenção. É ali, onde centramos a atenção, que nascem o amor e a magia, ou seja, a energia vital. 

     

     



    Escrito por cynara às 11h51
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    O editor que leu demais

    Vou começar a postar algumas das materinhas que estou fazendo na carta. A primeira é este perfil do editor Charles Cosac, dono da CosacNaify. Uma figura rara que adorei conhecer. Espero que vocês curtam também.

    ***

    Charles leu demais

     

     

     

     

    Há dez anos, quando decidiu abrir a editora CosacNaify, o brasileiro descendente de sírios Charles Cosac quis conhecer um ídolo de quando era mestrando em História e Teoria da Arte na britânica Universidade de Essex: o publisher norte-americano George Braziller. Já octogenário, Braziller o recebeu em seu escritório em Nova York e contou que tinha feito dinheiro até os 35 anos com o Clube do Livro do Mês, espécie de livraria em domicílio, antes de fundar sua editora de livros de arte. “Agora”, disse, “estou perdendo tudo o que ganhei. Mas uma vez que você faz o primeiro livro, não consegue parar.”

    Foi assim com Cosac. Herdeiro (ou “pensionista”, como ironiza) de uma família de mineradores, Charles passara 18 anos fora do país, estudando e viajando pela Inglaterra, Rússia, França, Noruega e Estados Unidos. Voltou ao Brasil porque, cansado de ser estrangeiro, queria ter uma casa. E encontrou na idéia de fundar uma editora de livros de arte uma solução para seu problema de... desemprego. “Quis uma editora basicamente para trabalhar nela. Não iam me dar trabalho. Meu português é ruim e eu não estava inserido no mercado”, explica.  

    Muita gente achou que não ia durar muito. Editar arte em um país que nem lê? Em 2001, o vaticínio quase se cumpriu: como Braziller, Cosac gastava tudo que tinha na editora, que dava um prejuízo de 500 mil reais por mês. Chegou a marcar data para fechar, até que um professor de Literatura da USP, Augusto Massi, se ofereceu para assumir o negócio. O idealista Charles não era nada prático em administrar uma editora. Massi, sim.

    Sob sua batuta, a CosacNaify passou a publicar também clássicos da literatura brasileira e universal, livros infanto-juvenis e, mais recentemente, autores contemporâneos de culto. Hoje, não só saiu do vermelho como é uma das mais respeitadas do país em termos de catálogo, com edições impecáveis. O diferencial são os textos de apoio (como orelhas, prefácio e introduções), entregues em mãos de especialistas.

    “A editora é do maior bom gosto”, opina Luciana Villas Boas, diretora editorial da Record. “A CosacNaify era um joão-bobo. Massi deu esqueleto, pés”, reconhece o fundador, que, para sua felicidade, deixou de se preocupar com cadernos de contabilidade para fazer o que de fato queria desde o início: ser empregado. No caso, de si próprio. E pôde se dedicar ao máximo a sua vida quase monástica, mergulhado em arte e em livros.

    Cosac, a pessoa, leu demais. Leu tanto que acabou se tornando um personagem, ou melhor, uma colagem de personagens que forma um todo singular. Um sujeito de 42 anos, pálido e alto (1m84), de cabelos negros compridos e meio calvo, sempre vestido com túnicas que vão quase até os pés e que lhe dão um ar sacerdotal. Não é alguém que se veja o tempo todo por aí, mas ele recusa o epíteto de “exótico”, fazendo blague. “O ridículo é relativo. Uma vez vi o Faustão e ele parece ter a bunda na frente. Se eu fosse igual a ele, me trancava no armário e nunca mais saía. E o Gugu, com aquele cabelo cor de ovo?”

    Como a biblioteca de sua casa, a vida íntima de Cosac é plagada de referências. O apartamento dúplex de mais de 1000 metros quadrados em Higienópolis, bairro tradicional de São Paulo, possui ambientes inteiramente vermelhos, do carpete até as paredes – influência de Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman, que viu, jura, umas 150 vezes. Já foi comparado a Oscar Wilde e seu Dorian Gray, mas uma referência assumida é o menos conhecido Oblomov, do russo Ivan Goncharov. Trata-se de um personagem que passa metade do livro tentando sair da cama, de onde dirige seu pequeno negócio de forma apática.

    “Nenhum Cosac jamais fez exercícios”, ri Charles, alimentando o mito. “Minha avó nunca saiu da cama e minha mãe vive sentada.” Quando era pequeno, no Rio, proibido de tomar coca-cola em casa, jurou que quando ficasse adulto ia gastar “muito dinheiro” em refrigerante. Chegou a tomar 45 litros por dia e ganhou uma úlcera. “Tive que escolher entre a vida e a coca-cola. Escolhi a vida por dois dias e foi terrível”, dramatiza. Hoje toma “só” 8 litros de coca diet para acompanhar os três maços de cigarro diários. Carioca da gema, nunca tomou sol por influência materna. Lembra, pequeno, de ir à praia com a mãe, Hend, toda coberta, de véu, óculos escuros e túnica, protestando: “O sol é a pior invenção de Deus!”.

    É difícil conhecer Charles Cosac sem lembrar da impressão que teve Sigmund Freud sobre o pintor surrealista Salvador Dalí: “Cândidos olhos de fanático”. Fanático no sentido religioso, mesmo. Charles é cristão ortodoxo e afirma acreditar ser parente de Jesus Cristo. Em sua imensa sala, sete imagens de Cristo barrocas, do século 18, refazem a trajetória do calvário à ressurreição. Aliás, examinar o editor seria um prato cheio para o criador da psicanálise: pai opressor, mãe possessiva e infância solitária são uma mistura explosiva para a psiquê de qualquer um. A propósito, desde os 12 anos Cosac vai ao psiquiatra. “Chanel 5 e Valium 5 são a mesma coisa para mim”, tenta simplificar. “Depressão é uma coisa química.”

     



    Escrito por cynara às 15h58
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    Charles - continuação

    Aos 13 anos, numa segunda-feira, Charles recebeu do pai um papel escrito “Maria”. Era um mistério, mas pressentiu que tinha algo a ver com sexo, e não errou. Maria era a dona de um bordel na Praia do Flamengo, no Rio.  Como o primeiro encontro estava marcado para o sábado, decidiu se preparar lendo três dos quatro volumes da Enciclopédia do Sexo. “Sempre pensei que a resposta estava nos livros”, assume. Ele conta que passou os dois anos seguintes indo lá “praticar sexo”. Mas, contrariando a expectativa paterna, não deixou de sentir-se homossexual.

    Freudianamente, o pai de Charles, Mustafá, uma figura ausente que passava parte do ano incomunicável no sertão da Bahia cuidando das minas de quartzo, foi sempre buscado pelo filho em suas relações. “Nunca amei”, afirma o editor, mas é uma meia-verdade. Viveu várias paixões platônicas por pessoas mais velhas, como o artista plástico Farnese de Andrade (1926-1996), de quem foi amigo e cuja obra resgatou para a posteridade editando dois belos livros sobre ele na CosacNaify. A figura paterna se concretizaria em Marshall Naify, milionário produtor de cinema norte-americano, pai de seu sócio Michael, que por sua vez é casado com a irmã de Charles, Simone.

    Charles e Michael se conheceram ainda na Universidade, em Londres. Mais tarde, se reencontrariam nos Estados Unidos, para onde Charles foi fazer um estágio como curador-assistente. “Mr. Naify” (pronuncia-se nêif), como o chama, achou-o perdido e o tratou como filho. Não há nenhum retrato do pai biológico de Charles por perto, mas há uma foto gigante de Mr. Naify em seu quarto e outra, estilizada pelo artista goiano Siron Franco à Andy Warhol, em seu escritório na editora.

    Recentemente, a CosacNaify relançou Dener – O Luxo, sobre o costureiro que também é um personagem-fetiche para Cosac, não por suas roupas. “Quando, criança, o vi na TV, constatei que eu não era o único homossexual. Foi a mesma coisa com o Capitão Gay do Jô Soares: aquilo quebrou o gelo, colocou a palavra ‘gay’ de uma forma amistosa”, diz.

    Charles sempre foi fascinado por indumentária. “Meu pai dizia que era coisa de mulher, mas minha mãe falava que vaidade e higiene são sinônimos. Eu, com minha cabeça rococó, levei isso aos píncaros.” Em seu quarto, as paredes são cobertas por enormes armários repletos de trajes, entre túnicas, camisas e ternos.

    Ele conta que na adolescência um dia passou em frente à loja de Saint Laurent em Londres e viu um casaco de oncinha e gola de guaxinim que o deixou enlouquecido. Provou a peça gargalhando e perguntou para o vendedor: “O senhor acha muito gay?” O inglês não se abalou: “Não, sir, talvez um pouquinho flamboyant (cheguei)...” Entre seus guarda-roupas há o “armário da solidão”, repleto de pijamas cafonas, agasalhos de malha, cardigãs – para os dias de depressão, que não são poucos. Volta e meia ele liga para algum amigo anunciando: “Estou péssimo.” Então, qual Oblomov, não sai da cama para nada.

    Outro personagem que o fascina é Des Esseintes, protagonista de Às Avessas, do francês J.K. Huysmans, considerado a bíblia do decadentismo. Des Esseintes é um nobre que se refugia em uma casa fora de Paris, cercado por sua coleção de pinturas e decidido a dedicar a vida à contemplação estética e intelectual, em um universo só seu. Puro Charles Cosac.

    Ele tem pouquíssimos amigos. Para esta reportagem, listou exatamente sete além de seus fiéis cães pastores Odin e Farah, em homenagem a Farah Diba, mulher do xá Reza Pahlevi. (E também, diz, hilariantemente, “porque toda família árabe tem um médico chamado dr. Farah, que usa terno cinza, tem cabelo branco, come quibe e vai embora...”) Recebe os amigos sempre de um em um. De vez em quando, briga e depois reata, sempre por carta: é um missivista.

    A galerista Luisa Strina vive em frente ao prédio de Cosac e só se falam assim. “Nos comunicamos sempre por carta. Às vezes regularmente, às vezes passamos um tempão sem nos falar”, diz Luisa. Um de seus melhores amigos, Siron Franco conta, divertido, que Cosac é capaz de escapulir pelo elevador da cozinha, que dá direto em seu quarto, quando uma visita não o agrada. “O Charles é uma pessoa que tem coragem de ser o que é”, elogia Siron, autor da maioria dos quadros que decoram as paredes do apartamento do editor, onde tem um quarto só seu – são amigos há 21 anos.

    Além de Siron, Cosac possui obras de Amílcar de Castro, Franz Weissmann, Tunga, Waltercio Caldas, Lygia Pape, Farnese e outros nomes da arte contemporânea brasileira, mas não se considera um colecionador. “É tudo auto-referente. Eu coleciono eu”, resume. “Adoraria ter um Volpi, por exemplo, mas é muito caro. Não sou milionário.” Sai pouquíssimo à noite e nunca para lugares da moda: sua única paixão de verdade é o trabalho, “uma obsessão”, em suas palavras.

    Talvez por isso, e a despeito da aparente excentricidade, Charles Cosac tenha conquistado um respeito raro. O que se fala dele por aí não é “aquele cara da túnica”, mas “editor arrojado”, “que não faz concessões”, “objetivo”, “inteligente”, “cultíssimo”. No fundo, apesar da natureza dramática, ele reconhece seu valor, mas tem uma maneira Cosac de explicar o sucesso: “É preciso acreditar na própria loucura.”

     

         

     

     



    Escrito por cynara às 15h56
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    Hector Babenco

    Como prometi, aí vai a íntegra da entrevista com o cineasta Hector Babenco. Confesso que o achava um antipático, mas ele me surpreendeu positivamente. Talvez tenha ido com a minha cara, vai saber. O fato é que falou muita coisa interessante. E o novo filme dele, O Passado, é uma das melhores coisas que vi no cinema nos últimos tempos. Deu voltas dentro de mim o dia todo. Vai estrear agora, na Mostra. Confiram e comentem.

    ***

     

    Você acha as mulheres todas neuróticas, ou pelo menos as ex, como aparece em seu filme?

    Eu disse outro dia uma mentira cavalar para uma platéia de mulheres jornalistas: que poderia ser o contrário, que o homem poderia ter se transformado num perseguidor da ex e de suas novas relações, atrapalhando a vida dela. Mas é menos plausível do que uma mulher fazer isso... Agora, todos somos neuróticos. Todos temos um sentimento de posse que se confunde muito com amor. Todos padecemos de não querer que alguém tasque aquilo que é ou foi nosso. E eu me incluo nisso, não me coloco como uma exceção nem como um caga-regras.

    Já teve alguma ex te perseguindo ou perseguiu alguma ex?

    Já persegui uma ex. Não de sair de casa e ficar esperando a hora que ela sai do apartamento, persegui dentro de mim. É natural você querer reconstruir um amor perdido. Se é uma relação que ainda tem um sabor, um cheiro, é natural ter saudade da outra pessoa. O quanto isso vai interferir na sua nova relação não se sabe. O amor é tão esquisito, menina...

    E esse sentimento passou logo?

    Não, ele fica. Assume novos disfarces, personificações, vira outra coisa, mas está lá. E para ele só Prozac.   

    Tem uma frase em seu filme Coração Iluminado (1996) que tem a ver com esse novo: os homens se apaixonam pelas mulheres loucas mas se casam com as outras. É verdade?

    Sempre procurei mulheres loucas. Sempre achei que a loucura era o atributo máximo da fêmea, da feminilidade, da sexualidade, da turbulência, do tesão. Nunca vi a mulher como uma figura frágil, doméstica, uma pessoa encantadora porém tênue, misteriosa e delicada. Meu primeiro amor foi essa louca de Coração... Eu tinha 16 anos, ela 20 e poucos e era esquizofrênica. Foi com quem tive minha primeira experiência de homem-mulher e aquilo fica como um padrão. Quase um DNA na tua pele.

    Você acha as loucas mais interessantes?

    A loucura é altamente poética. Agora, conviver com ela pode ser uma tragédia.

    Por outro lado, acha os homens fracos? Porque o protagonista (Gael) é um bolha!

    É como se você dissesse a mim que sou um bolha! Só contei a história porque me identifiquei demais com ele... A figura masculina estruturada, que sabe o que quer, tem bíceps, toma Gatorade e trata a mulher como uma motocicleta, não sou esse homem. Não sei tratar uma mulher desse jeito. Não saberia, nem que ela me peça. Não me excita, me dá medo. Tenho vergonha. Então pra mim o Gael percorre um caminho em que é passivamente usado pelas mulheres, mas também as usa.

    Há uma melancolia bem pouco brasileira em O Passado. É seu filme mais argentino?

    Não. Acho Coração Iluminado mais. É um filme que pode acontecer com qualquer pessoa que tenha uma masculinidade delicada e não exacerbada, de academia. As situações que acontecem o desconstroem, de alguma forma o fragilizam, porque ele é vulnerável, delicado. Mas não acho que devamos rotular o filme como melancólico, triste. Detesto adjetivos. Os adjetivos são a forma mais fácil e mais burra de não saber o que dizer e dar uma opinião.

    Você escolheu filmar em Buenos Aires por alguma razão?

    A história se passa lá e o autor (Alan Pauls) é argentino, mas eu ia filmá-la em São Paulo. E você iria fazer a mesma pergunta: ah, essa história só podia se passar em são Paulo! Claro, seria muito difícil em Salvador, no Piauí, porque a etnia, a temperatura, os códigos das relações são muito diversos. Mas em São Paulo tranqüilamente. Só não fiz porque o Rodrigo Santoro, que ia fazer o papel, tinha um compromisso com esse seriado nos Estados Unidos (Lost). Me ocorreu que o Gael poderia ser interessante e não podia fazer o filme com ele no Brasil, em português. Seria um pastiche, um engodo.

     



    Escrito por cynara às 14h55
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    Hector Babenco - 2

    Você sempre manteve essa relação com a literatura argentina: Manuel Puig (O Beijo da Mulher Aranha), Ricardo Piglia (Coração...) e agora Pauls...

    É que minha formação é de cinema europeu com leitura. Fui ver TV muito tarde, com 14 anos, e nessa altura já estava fascinado pelo cinema e pela literatura. O vídeo-game e a computação chegaram mais tarde ainda e sempre agi com uma certa preguiça, um certo desdém, não me pega. Aos poucos fui me rendendo. Em nível de comunicação, de informação, a internet é rápida, importante. Mas em nível de conteúdo é zero. Não há nenhum conteúdo que me interesse sendo transmitido por via digital.

    E pela televisão?

    Vejo muito pouco, tem meses que não vejo. Não gosto de ver filmes em vídeo... Acho que ver muito filme deseduca.

    Não vai ao cinema?

    De vez em quando. Vou ver os nacionais, para acompanhar o que meus colegas fazem. E tenho tido surpresas fantásticas. Pra falar a verdade, hoje tô mais interessado pelo cinema brasileiro do que pelo norte-americano.

    Agora se começou a dizer, cada vez que sai um bom filme brasileiro: “Até parece argentino”... Eles filmam melhor?

    Quem vai ao cinema no Brasil são as pessoas que podem pagar 16, 20 reais, são de classe média. E o cinema brasileiro de fato tem dado mais espaço a uma dramaturgia alimentada pelos excluídos, pelas desigualdades sociais, por essa mentira em que o país se transformou, essa lepra, como diz o Jabor. Já as tragédias argentinas são dramas de classe média: a vovó que não morre e não deixa a casa que tem que ser dividida pelos filhos, o filho cujo pai está com câncer e não sabe o que fazer... Como o público brasileiro também é de classe média, acha que o cinema daqui teria que ser como o de lá. Sou mais o cinema brasileiro, com suas imperfeições, do que o argentino com seu aburguesamento.

    Às vezes dá a impressão que eles amarram as histórias melhor.

    É verdade, eles têm uma carpintaria, um ofício maior, porque são mais organizados. Herdaram um modelo narrativo e comportamental muito inglês ou muito italiano do norte, onde o rigor, a disciplina, a ordem, fazem parte do planejamento. O brasileiro não teve essa formação cultural e seu produto final padece de imperfeições porque nós o estamos comparando com modelos já arquetípicos que temos dentro de nós sobre o que é bom e o que é menos bom. Sei lá, às vezes acho mais beleza no que é feio do que naquilo que é óbvio. Mas sou um louquinho...

    Uma vez o Quino, criador da Mafalda, me disse que os argentinos, como os portugueses, têm uma tristeza que vêm do tango e do fado, e que nós, brasileiros, somos naturalmente alegres. Você concorda?

    Claro, somos África! É só você ver qualquer tribo africana: em seus rituais, a expressão corporal, a alegria, a joie de vivre, a sensualidade, ocupam um lugar primordial. Os argentinos acham a alegria brasileira vil, ignóbil, moeda fraca, coisa de negritos, de macacos... E nós, através dos burgueses que gostam dos filmes argentinos, admiramos como são bem vestidos os atores argentinos, como os penteados são bons, como falam corretamente o que têm de dizer, como sofrem higienicamente... Sou muito mais a bagunça brasileira do que o Kleenex argentino.

    Bom, a felicidade é muito malvista intelectualmente, de maneira geral.

    Quando eu falava de Brasil, meus amigos argentinos mais intelectuais achavam que a alegria, o prazer, a irresponsabilidade, a espontaneidade, eram uma coisa inferior. Superior era quem sofria mais. Quem sofria mais era mais verdadeiro, mais autêntico, levava as coisas mais a sério, era uma pessoa superior. Todos nós queríamos sofrer muito porque isso nos fazia pessoas melhores. Graças a Deus vim pro Brasil e peguei minha primeira gonorréia com uma mulata, aos 17 anos... Uma mulata linda que encontrei na rua Bela Cintra. Sempre digo: a primeira gonorréia a gente nunca esquece!

    Hoje até se diz que as pessoas estão com saudades da gonorréia, porque tem tantas doenças piores...

    Pois é, a gonorréia é uma piada, você comprava um antibiótico, um tetrex da vida e já ficava bom.

    Por conta dessa alegria brasileira, você acha que a tristeza no cinema ficou restrita a quando se mostram problemas sociais e não nas relações humanas?

    Há uma carência no Brasil de um cinema de relações de classe média, mas acho que isso não existe porque esse espaço é ocupado pela televisão. Pra que vou fazer filmes pra competir com a TV? Se você faz um filme sobre os dramas de classe média, o cara tem isso de graça na televisão! Me perguntam: por que você não trabalha com o José Wilker, com o Antonio Fagundes? Porque a assistência tem eles de graça na TV. Ninguém sai de casa para ver um filme do Fagundes. Ele está, há 15 anos, sete meses por ano na TV, de graça, todos os dias! Meu público tem que sair de casa, pegar o carro, passar pela linha vermelha, enfrentar tiroteio, cruzar com um maluco que passa bêbado, parar num shopping, pagar o estacionamento... Vai gastar 60 reais. Esse público não vai sair de casa pra ver filme com nenhum ator importante brasileiro. Ponto.

    Você fez TV?

    Fiz para a Globo o seriado Carandiru - Outras Histórias, que gosto muito, tanto quanto do filme ou mais. E estou estudando uma nova série para eles, como criador e produtor. Talvez dirija algum episódio.

    Você já está há mais de 30 anos fazendo filmes. Está mais fácil hoje?

    Está pior. Muito mais difícil, a captação é difícil e o mercado internacional, que é de onde a gente podia tirar, inexiste. Não querem filmes em espanhol, por que iam querer em português? E o mercado brasileiro não paga o filme. Sou um profissional que vive muito bem porque trabalhei no mercado internacional, fiz dois grandes filmes lá fora (Ironweed e Brincando nos Campos do Senhor) e fui pago,é por isso. Se só tivesse vivido dos meus filmes brasileiros estaria, como morei sempre, num apartamento de três quartos e sala, não poderia pretender nada mais do que isso.

    A impressão que dá é que está melhor, com tanta gente filmando...

    Muitos pequenos dinheiros estão sendo dados pelas entidades que patrocinam, mas há muitos filmes que não se conseguem terminar.

    O caminho das co-produções é uma saída?

    Foi a que encontrei. Se não tivesse esses sócios argentinos, que não foi pelo viés “ah, ta difícil”, mas porque o filme tinha que ser feito aqui e lá, teria demorado mais um ou dois anos para captar. Porque a rigor se o filme custou dois palitos, um palito é argentino e outro brasileiro. Então teria que ter batalhado o dobro. Acho um pouco ingrato ter dedicado 35 anos de vida profissional ao Brasil e na hora de ir a um concurso para tentar dar um tapa num dinheiro, o projeto ser considerado absolutamente igual ao de um rapaz de 22 anos, talentosíssimo eventualmente, mas que acabou de sair de uma faculdade. Cair na mesma vala comum, não me parece muito legal.

    Escrito por cynara às 14h52
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    Hector Babenco - 3

    Agora que você terminou esse filme já fica pensando no próximo?

    Até não estrear, não consigo. Tenho idéias, imagens soltas, mas espero desovar um filme antes de pensar em outro, senão acho traição. Não dá pra ter duas mulheres e amar as duas com o mesmo carinho. Quer dizer: que dá, dá, mas é uma porcaria.

    Filmar no exterior ainda te anima?

    Sim, se for um bom projeto, nunca medi onde filmar. Vou ser argentino-brasileiro ou brasileiro-argentino até a morte, o que não me interessa é morar em outro país. Mas poderia filmar em qualquer lugar. Tem um projeto que estou estudando que adoraria que saísse, na Irlanda.

    Pensei mais na carreira americana. Te interessa ainda?

    Não, já tive e não me fisgaram. Não tenho nenhum interesse em estar disputando roteiro com mais 44 diretores e com uma cadeia de produtores me dizendo o que eles acham, quando são pessoas que saíram de Business School... No way, no fucking way.

    E olha que você foi bem tratado...

    Eu? Eu fui um príncipe. Fiz dois filmes totalmente autorais, fora do sistema, não eram filmes de estúdio. O Jack Nicholson (em Ironweed) todo dia me pegava pela mão e dizia: “Any problem? Let me know”. Então eu sabia que podia fazer o que quisesse,  porque ele a qualquer momento iria interferir. Depois fiz Brincando nos Campos... com Saul Zaentz, o produtor de Um Estranho no Ninho e Amadeus, um monstro. Fui uma pessoa muito feliz e fui procurado, não fui searching for: Ei, me dá um dinheiro aí. Foram projetos que quis fazer porque fui convidado. Esse percurso que alguns diretores brasileiros estão loucos pra fazer eu já fiz. E tem que fazer, jamais diria não o faça. Jamais diria ao Fernando Meirelles, um menino talentosíssimo, que não fizesse um filme como O Jardineiro Fiel. Faça, mas faça do jeito que você quer, não do jeito que eles querem.

    É um bom filme, não?

    Excelente, lógico. Ele foi craque, não se vendeu. É melhor fazer o Jardineiro Fiel do que ficar no Brasil e adaptar o livro do José Sarney, que é uma vergonha.

    Mas não é difícil não se vender?

    Pra mim, não. Decidi não me vender muito cedo, decidi ser anarquista, não ser nunca patrão. Sempre fui um franco-atirador, um espírito livre. Padeço da solidão, sou um solitário. Não pertenço a nenhuma associação, nenhum grupo. Sou uma pessoa estupidamente politizada para pertencer a algum grupo político. Os grupos são sempre de conveniência, sejam de classe, políticos, setoriais. São uma forma de encobrir a falta de talento.

    O que tem de melhor na Argentina e no Brasil?

    Prefiro dizer o que tem de pior: no Brasil é a irresponsabilidade, a falta de auto-estima e a pouca indignação em relação aos abusos, a falta de um pensamento sobre a nação. E o pior que os argentinos têm é essa crença absurda e absoluta de que podem pensar o mundo e que o mundo tem que se render ao pensamento argentino. É uma arrogância muito nefasta.

    À medida que o tempo vai passando você vai se sentindo mais brasileiro ou argentino?

    Essa é uma equação que jamais vai ter uma resposta, mas se eu tivesse que optar onde morar, minha nação é o Brasil. Você não acredita, né?

    Acredito, acredito...

    Ninguém acredita. Sempre vêm com a história: se jogam Brasil e Argentina, por quem você torce? (Era minha próxima pergunta.) Torço pelo melhor. Curto futebol, mas não sou fanático. Na verdade, não me sinto nem argentino nem brasileiro, acho que eu sou eu. Pode parecer pedante, babaca, humildemente peço desculpas. Mas pego do lugar, da pessoa, do pensamento, aquilo que me atrai mais e que eu considero mais genuíno, sem me preocupar que camiseta veste ou de onde vem.

     

     

     



    Escrito por cynara às 14h51
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    Democracia racial

    Novamente fui pra Curitiba, cidade legal, organizada, muito bonitinha mesmo.

    Mas uma coisa me chamou a atenção: na cidade cheia de brancos, descendentes de europeus, encontro apenas dois negros. Ambos motoristas de "otoridade".

    Ê, Brasilzão.

     



    Escrito por cynara às 14h46
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    Auto-ajuda express

    Deixei a VIP e fui pra Carta Capital. Esta é, portanto, a última coluninha que posto aqui... (Não tem ilustra porque achei que a desse mês não tinha nada a ver com o que escrevi.)

    Assim que sair a entrevista que fiz com o Hector Babenco, minha última missão lá, postarei a íntegra. Vale a pena ler!

    A propósito dessa coluneta, um leitor enviou pra mim uma frase de Aristóteles que tem tudo a ver com ela (e eu nem sabia): a virtude está no meio. Pois.

    ***

     

    AUTO-AJUDA EXPRESS
    DUAS DICAS PRÁTICAS PARA SER FELIZ. OU QUASE

    Quando a gente é pequeno e tem uma infância legal, pensa que a vida é a maior moleza, né? Que ser feliz é possível num estalar de dedos... Só muito depois nos damos conta de que é mais fácil estar feliz do que ser feliz.

    Um dos aspectos que definitivamente atrapalha ser feliz, acho eu, é que colocamos a felicidade num patamar alto demais. Estabelecemos que precisamos o tempo inteiro batalhar duro para chegar à perfeição. E como, obviamente, nunca conseguimos isso, vivemos frustrados.

    O que eu proponho é mudar esse patamar: em vez de querer atingir o ápice, que tal passar a se contentar com... o mais ou menos? Parece pouco? Bom, é mais do que menos – e menos é o que mais temos encontrado neste mundo, sinceramente falando.

    Comentei a proposta com alguns amigos que ficaram revoltados. “Como assim? Não quero sexo mais ou menos!”, gritou um.“Não quero comida mais ou menos!”, revoltou-se outro. “Nem trabalho mais ou menos!”, bradou um terceiro.

    Gente, a coisa não é tão pontual. Estou falando de alguns ideais que, não sei o porquê, a gente lançou lá na estratosfera. Só o Super-Homem mesmo para alcançá-los. Por exemplo: grana. Poxa, será que não dá para se contentar com um salário mais ou menos, que dá para pagar as contas e não traz, por outro lado, o estresse que em geral acompanha aquela dinheirama toda no contracheque?

    Outro: corpo. Um corpo mais ou menos em forma não é o suficiente para fazer alguém feliz? Não seria uma maneira de passarmos a aceitar nossos pequenos defeitos? Ou você ainda não reparou no discreto charme da imperfeição?

    As pessoas têm problemas com o mais ou menos. Acham mixaria. É um falso dilema, porque muitos dos que nós conhecemos nem nele chegam. “Bem mais ou menos”, costuma-se dizer sobre algo ruim... Como se o over também não fosse tantas vezes péssimo. O ponto fundamental é: por que não aprender a ser feliz com o que já se tem?

    COCADA BOA

    A segunda idéia prática desse minimanual é substituir Deus por algo mais palpável. Calma, calma, não estou dizendo para você deixar de ter fé. Ter fé é bom. Remove montanhas, não é assim que se diz?

    Mas sinto que é preciso algo mais terra-a-terra para ser usado no cotidiano. Funciona assim: você escolhe uma segunda coisa que sabe fazer além de sua ocupação principal, algo de simples realização, tipo um plano B. Daí, nos momentos em que está inseguro, quando não sabe se uma nova jogada dará certo, pensa: se tudo der errado, ainda posso fazer aquilo.

    Como sou uma cozinheira de mão cheia (juro!), uso a cocada. É como um mantra pra mim: basta eu estar perto de entrar em alguma fria que já me mentalizo sentada numa praça, tabuleiro à frente, vendendo minhas cocadinhas... É alentador. O melhor de tudo é que pensando assim passamos a ser menos medrosos, a ousar mais.

    A vida é arriscada, mesmo. Talvez o segredo esteja em viver em etapas: devíamos começar tendo como meta o mais ou menos, mas sem desprezá-lo uma vez que chegamos lá. Aprendendo a se satisfazer com esse pouco que nem é tão pouco assim, podíamos nos dar o direito de tentar alçar vôos bem mais altos, mas sem o temor da queda, que atrapalha pacas.

    Se não der certo, ué: cocada! Quer a receita?



    Escrito por cynara às 16h37
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    Cláudio Assis, o homem, o mito

    Pode-se concordar ou discordar do cineasta pernambucano Cláudio Assis, o Claudão. Mas é inegável o talento do homem para gerar polêmica. Não é meu tipo de filme o que ele faz, digo logo. Mas a opção de Claudão por incitar platéias a refletir é interessante _e, pelo que pude sentir, legítima. Anacrônica, talvez, mas legítima.

    Fiz essa entrevista originalmente para a VIP. Por problemas de espaço, saiu pequena. Achei que vocês gostariam de ler um pouquinho mais...

    Eis o cabra.

    ***

     

    Dizem que no Brasil só rico ou filho de rico se torna cineasta. É verdade?

    Não é só no Brasil, é uma questão da arte cinematográfica: em outros países é um pouco diferente, mas via de regra ela é uma arte burguesa. Não se faz um filme com menos de 1 milhão de reais.

    É mais fácil para um Moreira Salles do que para um Assis...

    Lógico. Mas não é uma questão de predestinação, e sim de correr atrás do seu objetivo. Se alguém contar pra você minha história, vai pensar que é mentira. Fui operário, rocei mato com a estrovenga, fui cozinheiro dos operários do departamento de estradas e rodagens. Estudava de noite: fiz economia, depois deixei pra fazer comunicação. Aprendi a fazer cinema na porrada, carregando mala, tripé, câmera...

    O Karim Aïnouz disse aqui na VIP que para um pobre é quase impossível fazer cinema.

    Batalhando dá, tudo dá, desde que você seja honesto, que lute, seja perseverante, não venda sua alma ao diabo. Já me perguntaram: "Você venderia sua alma ao diabo?" O que é o diabo, o cinema de Hollywood? Não, o diabo é muito melhor do que Hollywood.

    Se te convidassem pra filmar em Hollywood você não iria?

    Jamais, jamais, jamais.

    E num esquema independente, tipo Sundance?

    Nem isso. Não vai dar tempo! Tenho muita história pra contar aqui, com meu povo. Lá qualquer pessoa se vende, é obrigado. Tem história no cinema, não vou citar nomes, onde os produtores dizem: "Não quero essa montagem, quero essa". Aí carrega o filme pra Europa, pros Estados Unidos, pra remontar... Não quero essa coisa. Quem manda no meu filme sou eu, eu mando 100%. É 100% meu. Não escrevo filmes pra concorrer a uma vaga no Oscar. E não vou pros Estados Unidos, um país nazista, que não respeita ninguém.

    Você enriqueceu fazendo cinema?

    É engraçado: quando sai que Cláudio Assis ganhou um milhão, todo mundo pensa que fiquei rico. Mas eu ganhei pra fazer o filme! Fica todo mundo da família: "Rapaz, Claudão agora é um cara rico!" Aí ganho 200 mil da Petrobras: "Pô, 200 mil???" É pra fazer o segundo filme, gente. Pra explicar que não ganhei esse dinheiro...

    Mas dá para sobreviver?

    Sim. Nunca fiz publicidade, nem vou fazer. Ganhei vários prêmios em dinheiro em festivais, uma grana boa pra quem bebe cerveja – só não bebo cachaça, mas tomo Teacher’s... Gasto meu dinheiro todinho com meus filmes. Já podia comprar apartamento, mas não. Logo, logo, vou conseguir algum trocado com esse de novo. Meu carro é aquele Mercedes 1967 do Amarelo Manga. Tenho um Mercedes! Que é lindo, quando passo todo mundo olha. Se passasse com outro carro ninguém olhava, mas como é um Mercedes... Enfim, dá pra viver.

    Você faz filme para o público ou pra ganhar festival?

    Não vou dizer que não gosto de ganhar prêmio. Lógico que é bom ter reconhecimento, mas não é pra isso que faço, nem para a crítica. O filme se completa quando o povo vê, aí você sabe se é bom ou não. Faço filme pro povo, pra discutir com o povo. Mas para quem faz filme de baixo orçamento, que não tem dinheiro para pagar 4 milhões de publicidade, esses prêmios são excelentes, porque viram uma mídia gratuita, espontânea.

    Seus filmes não são palatáveis pra ter propaganda no horário nobre.

    O que é palatável? Caixa-Dois, Ó Paí, Ó? Realmente quem gosta desses filmes não vai gostar de Baixio, porque se gostarem são incoerentes.

    A TV não vai oferecer um horário gratuito para divulgar seu filme...

    Não vai porque tem o compromisso de viciar o olhar, de dominar, de fazer com que as pessoas sejam todas tapadas, não tenham compreensão da vida. Por isso não querem Amarelo Manga, Baixio, os filmes do Beto Brant, filmes que façam pensar. Eu só acredito em filmes que façam pensar.

    Mas o povão vai ver seus filmes?

    Botei meu filme a 1 real no Recife, foram 13 mil em nove dias. Dizem que o povo não gosta de cinema, de música clássica... Bota na praça pública pra ver se o povo não vai ver!

    E gostam, não ficam chocados?

    Chocados com o quê? A vida é pior, a realidade é muito pior.

    Pra mim há uma incoerência: seu filme é muito mais visto por essa elite que você critica do que pelo povo.

    Infelizmente a culpa não é minha.

    Você prefere o sucesso da crítica do que o de público?

    Não vou ser filho da puta, escroto, hipócrita, pra dizer que não gosto da crítica, já ganhei vários prêmios da crítica. Mas se for pra escolher, prefiro o de público, sem sombra de dúvida. A crítica ajuda que o povo veja.



    Escrito por cynara às 14h54
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    Claudão 2

    Já se falou em estética da fome e em cosmética da fome. Como você define seu cinema?

    É a estética da impunidade. No Brasil, não é de hoje, nós vivemos a impunidade no Legislativo, no Executivo, no Judiciário, na violência com a mulher, no social, no cotidiano. E o que estamos falando em Baixio das Bestas é isso. Me perguntam: por que aqueles agroboys que tanto maltratam as mulheres, não respeitam ninguém, não são punidos, não têm redenção? Ué, por que a gente tem que redimir só no cinema?

    Ao mesmo tempo que o espectador rejeita a violência sexual contra a menina de 13 anos do filme também a deseja, não é?

    O homem não olha pro pau do outro quando vai no banheiro? A mulher não olha pra braguilha do homem pra ver que tamanho é o pau dele? Isso é do ser humano, não adianta vir dizer que não é. Um dos fundadores do festival de Roterdã me disse o seguinte: "Quero agradecer pelo seu filme por uma coisa. Senti desejo por aquela menina, seu filme me permitiu isso. Percebi que dentro de mim também há um filho da puta". Todo ser humano é capaz de sentir algo assim.

    Você é pervertido?

    Não, me acho normal.

    Como enfrenta as acusações de pervertido?

    O que é ser pervertido? Se eu for dar ouvidos ao que falam de mim... Quem não vê que ali tem uma denúncia séria é porque vira a cara para os povos. Perversão é ignorar isso.

    Você acha mesmo o Hector Babenco um imbecil, como já disse?

    Não o acho um imbecil, mas ele teve uma atitude de imbecil ao dizer em Mar del Plata (Argentina) que nós brasileiros éramos idiotas, que aqui era republiqueta de bananas. Não posso entrar na sua casa, comer sua comida, sua mulher, seu marido, pegar seu dinheiro e dizer que você é um idiota! Como assim? Oxente! Menos...

    Ao contrário de seus personagens, você trata bem as mulheres?

    Pergunte a elas. Todas as mulheres que já amei um dia são minhas amigas. Não tenho inimizade com nenhuma. E nem com os maridos delas, são todos meus amigos. Amo demais as mulheres.

    Não é misógino, como o acusam?

    Não sou, nem meu filme é; os personagens é que são. Eu, meu filme, jamais. Muito pelo contrário.

    Dizem que os nordestinos são machistas. Você é?

    Não são os nordestinos: todo homem é machista. Quem posar que é liberal é porra nenhuma. Não se muda o pensamento da sociedade da noite pro dia. E não são só os brasileiros, não. A sociedade como um todo, o planeta. Deus é homem, Jesus é homem, Buda é homem. Vivemos numa sociedade onde o homem é que manda. Podemos ter atitudes onde a gente pode se policiar e mudar o relacionamento nosso, particular, mas somos criados dessa maneira. E é a mulher que cria o homem, ela também é machista.

    As mulheres passaram a dar mais mole pra você depois da fama?

    No cinema as pessoas têm uma brincadeira que diz o seguinte: o curta-metragista tem o pau pequeno; quando você faz um longa seu pau cresce... A vida foi generosa comigo. Sou um cara feio e pobre, mas nunca tive problema de amar as mulheres. Então é indiferente pra mim. Lógico que tem umas que ficam: ah, ele é um cineasta, é o diretor. Mas sou a mesma pessoa, não mudei nada.

    Mas falam que diretor de cinema come muita mulher...

    Não, quem come muita mulher, segundo a teoria, é bailarino macho. É difícil ter bailarino macho, mas quando tem... Ator macho também. Depois vem os fotógrafos e depois é que vem o diretor, lá na quinta escala...

     



    Escrito por cynara às 14h45
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    Claudão - parte 3

    Como você vê seu primeiro filme, Amarelo Manga, hoje?

    Acho um filme necessário, elegante, curioso. Hoje gosto mais dele do que gostava. Olho pra ele assim: pô, bicho, tu é legal, hein, cara?

    Acha que melhorou como cineasta?

    Acho que o Baixio das Bestas é mais centrado, não tem respiração. É mais focado porque no Amarelo a gente busca o ser humano num universo cosmopolita, de uma grande cidade. No Baixio a gente volta o olhar pra aldeia, mesmo, pro ser humano ali enterrado. A gente está falando de um ser humano degradado, escravizado, destruído pela monocultura da cana-de-açúcar. Ele é mais cinema mesmo, é mais: preste atenção, preste atenção... Preste atenção, caralho! O próximo vai ser na cidade de novo, A Febre do Rato. Um marginal que ama as mulheres, mulheres da terceira idade. Vou discutir o sexo na terceira idade.

    Você sempre vai fazer pontas em seus filmes tipo o Hitchcock?

    Sempre.

    Gosta da fama?

    Gosto de poder realizar, de ser um realizador, de conquistar espaço, de poder fazer meu próximo filme. Fama? Não sei o que é isso. Teve um dia que me pediram autógrafo e me senti ridículo.

    Você disse que o ser humano é somente estômago e sexo. Acha mesmo isso?

    Sem dúvida. O ser humano vive permanentemente para comer. Você olha e tá todo mundo comendo, mastigando, é chiclete, é doce... O cara tá jogando futebol e tá comendo! Todo mundo só vive em função disso. Uns só comem e engordam e a cabeça diminui. Outros comem porque querem comer o outro. Quando não querem comer literalmente, comem ideologicamente. O ser humano é perverso, só quer comer.

    Então comer e trepar não são bons?

    Sou um ser contraditório... Comer é bom e trepar é melhor ainda! Mas prefiro trepar do que comer.

    E prefere beber ou trepar?

    Lógico que é trepar. No dia que meu pau parar de subir vou parar de beber!

    Você se considera de esquerda?

    Sou um homem de esquerda. Sempre me guiei, desde criança, pelo poema do Drummond: "vai ser gauche na vida". Não é ser comunista, marxista, socialista. A questão é: você concorda ou não com as injustiças sociais? Concorda ou não com a destruição do planeta? Agora, se for pra escolher, lógico que sou do lado do Marx, do Lenin. Fica tu do lado do Bush!

    Como diz o personagem de seu filme, cinema é bom porque dá pra fazer o que quiser?

    Cada um faz o cinema que quer. Eu não pinto porcelana. Sou de Caruaru, meu cinema vem do barro, do povo, é plugado no social. Minha arte é pra discutir, provocar – não no sentido de ter repúdio, mas no de dialogar e reagir às mazelas que existem nesse mundo. É por isso que faço cinema. Senão vendia arma, tênis, giz.

    Você quer fazer a revolução pelo cinema, é?

    Lógico! Minha metralhadora é a câmera.

     

     



    Escrito por cynara às 14h41
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    Pensão alimentícia S/A

    Taí a coluna de agosto (ilustra do Alexandre Camanho). Vou ver se amanhã consigo um tempim pra postar a íntegra da entrevista que fiz com o cineasta Claudio Assis. Saiu pequena na VIP, vale a pena ler inteira. O cara é uma figura!

    ***

    PENSÃO ALIMENTÍCIA S/A
    É ERRADO TER FILHO SEM QUE O PAI QUEIRA. E PONTO

    Não resisto a comentar a história do senador suspeito de corrupção que teve uma filha fora do casamento. Corrupção é coisa pra Justiça tratar, mas sobre ética qualquer um pode refletir – ou a falta dela. Hoje em dia, pós-exame de DNA, tornou-se comum: você transa com uma mulher, às vezes só por uma noite, ela engravida e, depois de provar que o filho é seu, o obriga a pagar pensão.

    Com certa dose de dor-de-cotovelo por ser a amante uma gata, a esposa traída pelo tal político resumiu o imbróglio à seguinte frase:“Homem é mesmo muito besta”. Para ela, seu queridinho caiu em um golpe: teria sido “vítima” da sedução da bela e jovem jornalista. Acho ridículo esse raciocínio. Mas...

    Sempre me intrigaram esses casos de homens poderosos cujas namoradas (ou amantes ou casos fortuitos) engravidam sem o seu consentimento. Sem consentimento em termos: a princípio, um cara que não é vasectomizado ou estéril deve sempre partir do pressuposto que pode gerar um filho. Portanto, o erro fundamental é do homem. Se não quisesse ter filho, que usasse camisinha, ora.

    Uma vez emprenhada, é raríssimo que uma mulher submeta seu filho a um teste de DNA sem ter a certeza de que o sujeito é o pai da criança. Além de ser um total mico se der negativo, só uma pessoa totalmente promíscua poderia não saber que foi fulano ou beltrano o autor da proeza. Os jogadores de futebol que o digam. Quantos deles já não
    se viram numa situação semelhante e não deu outra: gol pras marias-chuteiras...

    Uma história recente envolveu o comediante Eddie Murphy: ele namorava uma das Spice Girls, Melanie Brown, até que ela engravidou. Mel B. chegou a registrar o recém-nascido, mesmo antes do resultado do teste (exigido por Eddie), como Angel Murphy Brown. Deu positivo, óbvio.

    AMOR DE MÃE
    A questão pra mim é a seguinte: se o interesse dessas moças, como elas dizem, é salvaguardar as crianças, por que optaram por tê-las sabendo que não iriam ter pai? Se só pensavam no bem-estar dos pequenos, como não se deram conta de que é importante para eles ter pai e mãe? Ou acaso roqueiros de fama internacional que só vêem o filho brasileiro uma vez por ano (e olhe lá) podem ser considerados “bons pais”?

    É mentira delas. A última coisa em que essas mulheres pensaram foi na criança. Tiveram o bebê algumas por vaidade de ter um filho de pai famoso, outras por puro interesse. A paternidade, para elas, se resume a pagar pensão alimentícia. De preferência a mais alta possível, para cobrir os futuros danos psicológicos na criança dessa ausência paterna. Haja empreiteiro amigo pra ajudar.

    O mais interessante é que antigamente o chamado “golpe da barriga” era feito por uma razão até um pouco mais “nobre”, vá lá: a mulher apaixonada embuchava pra tentar agarrar o amado, escorregadio que nem quiabo quando o assunto era casamento. Hoje nem isso. Muitas dessas mulheres não estão nem um pouco a fim de ficar com os caras que as engravidaram: estão a fim é da grana, mesmo.

    Ter filho é uma decisão que se toma a dois. Ainda mais hoje em dia, quando muitos homens estão dispostos a participar da criação, a dar carinho, a dividir as tarefas. Pensar o contrário é machismo, também: “Ah, a mãe é mais fundamental que o pai...”. Não, não é. Ambos são fundamentais. Quem põe um filho no mundo sem se preocupar se ele terá pai – pai de verdade, não um nome no registro civil – é egoísta. E egoísmo não combina nada com maternidade.



    Escrito por cynara às 17h59
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    Fama e anonimato

     

    Tô postando duas colunas da VIP seguidas porque estava de férias. A seguir, a coluna publicada na edição de julho, que ainda não havia sido postada. Alguns bons amigos fazem figuração de luxo nela. (Para bons entendedores...)

    A ilustra é do Alexandre Schadek.

    ***

    FAMA E ANONIMATO
    VIRAR CELEBRIDADE É ROUBADA PRA BIG BROTHER BUNDÃO

    Hoje você discutiu com a síndica do prédio. Mandou a sujeita à merda porque reclamou daquele amasso que deu na gata em plena escada, entre o 12º e o 13º. A câmera da portaria pegou tudo. O zelador nem ligou, mas a mulher ficou uma fera.

    Você sai pela rua gargalhando. Acordou cedo, deu vontade de ir para o trabalho a pé. Vai olhando as vitrines das lojas e pára no sebo da esquina pra folhear uns livros. Você sabe que é errado, mas não resiste e enfia na calça uma edição de bolso do Recruta Zero. O problema é que o segurança viu... E lá vai você pagar o mico de ir direto pro caixa fazer a compra, quietinho.

    Tudo bem, não se ganham todas. Além do mais, é sexta-feira e as horas no trampo vão passar rapidinho, porque logo mais, à noite, você vai sair com a galera. Antes disso, ainda rola um cineminha com a mina. No caminho, no carro mesmo, vocês acendem um baseado – você nem curte tanto, mas a gata adora fumar unzinho antes de assistir a um filme. Um cara passa por vocês, vê o baseadão no seu bico e tira a maior onda.

    Você encontra a tchurma e senta nas mesinhas da calçada de um bar qualquer. Começam a falar besteira, rir muito e falar alto pra caramba. Seu amigo Nico é o primeiro a ficar bêbado. Ele começa a azarar absolutamente todas as meninas do lugar. Escolhe a mais delicada e linda, se joga no chão e beija os pés dela. Quando a bebedeira aumenta, ele esquece a gata e passa a xingar o chefe de vocês – um cara poderoso e superconhecido. Diz que ele é um filho da puta e que tem vontade de matá-lo.

    Aquele amigo gay, o Nelson, pede uma cachaça e depois outra e outra ainda. Começa a gargalhar, contar histórias sujas, falar palavrões e revelar as intimidades de todos – em decibéis tão elevados que o bar inteiro ri. O doido do Nelson começa a achar o garçom gostoso, passa uma cantada nele e, sabe o que mais?, cola.

    STRIP TEARS
    Beleza, galera, você diz, hora de ir pra boate. Na saída, tem de segurar o Pedrão, que quer dar porrada no guardador por causa de um arranhãozinho de nada no carro. Todo mundo tá alteradaço: sua gata mesmo já manguaçou um bocado. No problem, você também já tomou uns uiscões e tá que é só alegria. A pista da disco está lotada.

    A certa altura da noite sua amiga Silvia some e só vai reaparecer num canto escuro, meia hora depois, sem blusa e sem memória. Enquanto isso, a Dani, que anda triste porque o namorado a deixou, sobe na mesa e improvisa um strip-tease lacrimejante, gritando: “Quem quer me comer?”. Sua gata tem que tirar as duas de lá e enfiá-las num táxi.

    Aproveitando a deixa, você vai ao bar pra pegar a saideira. Chegando lá, a namorada do Pedrão te puxa pelo braço e leva pro banheiro pruns amassos. Putz, você sempre teve tesão pela mina, mas o que a louca estava querendo mesmo era a sua companhia para usar substâncias suspeitas – na maior bandeira, com a porta aberta e tudo o mais. É nesse momento que sua gata aparece e dá o flagra nos dois.

    Vai dizer que nunca viu ou viveu algo parecido? Quem nunca pecou que atire a primeira pedra... Agora imagina se você fosse famoso: tava ferrado! Querer virar celebridade é coisa de otário. Não tem dinheiro no mundo que compense as delícias de ser anônimo.
    P.S.: Pelo sim, pelo não, beba com moderação.



    Escrito por cynara às 17h51
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    Você sabia...?

    Que o pai do anarquismo é avô de Frankenstein???

    Tô falando sério: William Godwin, considerado um dos mentores do anarquismo moderno, vem a ser pai de Mary Shelley, a autora do livro sobre o monstro de patchwork. A mãe dela, Mary Wollstonecraft, é uma célebre feminista britânica.

    Hum... Tem que haver alguma relação aí. Filha do anarquista e da feminista cria o homem ideal: uma colcha de retalhos das virtudes de muitos outros. Como se não bastasse, super submisso...

    Mr. Freud, please?



    Escrito por cynara às 16h06
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