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    Pedro Juan Gutierrez

    Não leio muitos livros novos, quase só relançamentos. Mas há coisas que adoro. Pedro Juan Gutierrez, por exemplo. Apaixonei-me pela literatura dele à primeira vista, ainda em espanhol. E me orgulho de ter sido a primeira pessoa no Brasil a entrevistá-lo.
    Depois dessa, foram outras três vezes... A última foi no mês passado, para a Vip. Por falta de espaço, saiu pequeno. Vale a pena ler a íntegra. Divertido que só ele. Visceral, entranhável, como toda literatura deveria ser.
    *
    Há quatro anos te entrevistei e você me disse que já tinha estado com 200 mulheres. A conta aumentou?
    P.J. - Chegou a umas 230, não muito mais... Já tenho 55 anos, filha. Até quando poderia continuar neste ritmo? Vou ser sincero: o que sucede é que estou com uma mulata com a qual me sinto muito bem sexualmente, emocionalmente, tenho uma menina de quatro anos. E quando você se sente bem, não necessita ser infiel.
    Não acredito! Isso é algo novo em tua vida, não?
    P.J. - Não, sempre tive etapas de fidelidade. Não tenho sido um infiel permanente... Mas agora estou mais tranqüilo.
    Você tinha duas mulheres então, vizinhas. Com qual das duas ficou?
    P.J. - Com a vizinha do andar de baixo...
    E já começou a falhar, a usar Viagra?
    P.J. -Tenho um medo do Viagra! Vou te confessar: posso fazer sexo uma vez ao dia, normalmente. Há dias que estou mais estimulado e faço duas, três vezes... Se fico dois, três dias sem transar já fico de mau humor. Parece que tenho um excesso de testosterona!
    Em Cuba se vende Viagra?
    P.J. -Não, mas tenho um amigo escritor que vive em Miami que me presenteou com alguns comprimidos... “Isso é um vício!”, me disse. Mas me deu medo provar por causa do coração.
    Por que num país tão bonito como Cuba, você só fala das coisas feias?
    Porque vivo em um bairro muito violento, agressivo. Para se ter uma idéia, outro dia, debaixo da minha casa, um avô deu um tiro na cabeça do neto. Duas semanas antes, na outra quadra, mataram um antiquário para roubá-lo... Um escritor, eu pelo menos, deve escrever sobre o que vive. É o que me faz pensar, refletir. Se vivesse numa zona mais limpa, seguramente não escreveria assim. O lugar que você vive te influencia e eu vivo há 18 anos ali.
    Você gosta de uma literatura mais visceral, entranhável...
    P.J. - Isso por um lado. Por outro, acho que a literatura é mais antagonismo, mais conflito. Os seres humanos colocados em situação-limite para que cheguem ao final de sua força. Talvez seja o que me interessa. Por que? Não sei.
    Você não fala de política cubana. E da brasileira?
    P.J. -Em geral, não me interessa a política. Para mim os políticos são milionários mafiosos. Isso não tem nada a ver comigo. Sou um homem que pensa, que reflete e escreve. Apesar de vender livros em 20 países, sou pobre, sigo sendo o mesmo Pedro Juan de sempre. Usando a mesma roupa, vivendo na mesma casa... Não tenho nada a ver com essa gente política, politiqueira, mafiosa.
    Há um macaco enjaulado no início do livro que me parece uma metáfora de tua situação em Cuba. É assim que você se sente?
    P.J. - Não sei. Isso realmente ocorreu. São imagens que não se esquece: o macaquinho que morreu e a macaquinha que fica desolada, se engancha pelo dedo no alto da jaula, com uma depressão total... Eu não escrevo pensando nos efeitos que causarei. Entro numa atmosfera e escrevo, escrevo, escrevo...
    Mas esta imagem do animal na jaula tem sido recorrente em teu trabalho...
    P.J. - De alguma maneira, vivemos assim. Eu, por exemplo, adoraria ter vindo para cá com minha mulher, poder desfrutar um pouco juntos, mas não me permitem sair com ela. Só posso sair sozinho. Eu posso entrar e sair tranqüilamente porque sou membro da União de artistas e escritores de Cuba. Então, de certa maneira, sou um privilegiado.
    Teus livros continuam sem ser publicados em Cuba?
    P.J. - “Melancolia de los Leones” foi publicado em 2000, é um livro muito cortazariano, kafkiano. Depois, “Animal Tropical”, em uma edição pequena que se esgotou rapidamente. Só.
    Tem muitos fãs lá?
    Sabe que sim? Já me estão reconhecendo, vou pela rua e me convidam para uma cerveja... Isso é muito emocionante. Há uma praça na parte velha onde vendem livros usados e todos os vendedores me conhecem. Me chamam para que autografe a “Trilogia Suja de Havana” para que possam vender mais caro...
    Continua havendo em Cuba esse apartheid entre os turistas e os cubanos?
    Sim, continua havendo duas moedas. Há uma moeda cubana que substituiu o dólar, muito valorizada, que só circula entre os turistas.
    A pobreza, a fome, tudo continua igual?
    P.J. - Sim. Agora estou terminando um romance, “Pobre Diablo”, que se desenvolve em Peñan de Rios, uma cidade próxima a Havana, e é mais ou menos o mesmo, desgraçadamente.
    E se mudasse, se as coisas ficassem melhores, que seria da tua literatura?
    P.J. - Nesse momento estou tratando de passar um tempo sem escrever. Sofri muito com esse romance, um ano e tanto vivendo-o e foi terrível. Agora preciso refletir um pouco. Talvez necessite viver em um lugar mais limpo, mais confortável.
    Quer sair daí?
    P.J. - Gostaria de viver talvez seis meses na Espanha, seis meses em Cuba. Algo assim, para ver se meu espírito se refresca um pouco, porque realmente estou agoniado.
    Você está rico?
    P.J. - Rico, não, mas posso viver de literatura.





    Escrito por cynara às 19h12
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    Pedro Juan Gutierrez - continuação

    A fêmea mais limpa do teu livro é uma bezerra. Você gosta de mulheres sujas?
    P.J. - O que passa é que viciei nas negras, nas mulatas... Além do mais, em Cuba se sua tanto! O suor, o cheiro do corpo humano me excita muitíssimo. Às vezes digo a minha mulher: não use desodorante! Quando ela fica trabalhando na casa, limpando, e está mais suada, é que eu me excito. Ela é muito louca também e se deixa levar pelas minhas idéias. E desfruta muito...
    Tem um trecho no livro em que seu alterego, Pedro Juan, está manuseando uma moça, diz que ela cheira a enxofre e bacalhau podre e ainda comemora: “Ótimo!”
    P.J. - As pessoas se esquecem que somos mamíferos, animaizinhos. E o cheiro nos excita muito, não só a vista.
    Você crê que as mulheres hoje estão depiladas e perfumadas demais?
    P.J. - Sim. Perfume demais, desodorante demais. Eu gosto de perfumes. Por exemplo, agora: estamos aqui como pessoas civilizadas, eu estou perfumado com um perfume francês, Brüt, delicioso. Mas se passamos a outra situação, esse excesso de civilização paralisa a minha parte animal. E eu creio que a maioria dos seres humanos funciona igual. O que acontece é que lhes dá vergonha dizê-lo. Estamos tão protegidos dentro da nossa faceta civilizada que nos dá vergonha dizer que gostamos do sexo sujo, com uma pessoa normal, que cheira normal. Há um excesso de civilização cosmético, de sabão.
    Aqui no Brasil tomamos banhos todos os dias. Ou seja que você não deve gostar de brasileiras...
    P.J. - Em Cuba também temos que fazer isso. Há muito calor, muita umidade, você se sente pegajoso e toma muitas duchas. Sem sabão, pra não ressecar a pele.
    Então gosta de brasileiras, apesar de serem limpas demais?
    P.J. - Tive sexo com três brasileiras, que me lembre. A primeira foi uma de Campinas que conheci em Cuba e quando vimos já estávamos grudados... Depois aqui no Brasil com outras duas. Todas inesquecíveis.
    Por que? Que têm de diferente das cubanas?
    P.J. - Eu acho os brasileiros muito parecidos com os cubanos, talvez pela mestiçagem. Somos muito conversadores, extrovertidos, carinhosos.

    Escrito por cynara às 19h12
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    Pedro Juan Gutierrez - continuação



    Em teu livro há um personagem que é como o mestre de Pedro Juan, que diz que as mulheres não amam de verdade. Você acredita nisso?
    P.J. - Na verdade escutei isso de uma mulher de coração muito duro que me disse que os homens é que se enamoram de verdade. Eu creio que as mulheres se enamoram, podem apaixonar-se de verdade, mas há algo subjetivo: nós, homens, nascemos como bebês e morremos sendo bebês. A maioria dos homens não amadurece. Temos pânico à solidão, viver só, que os filhos vão embora e fiquemos sós. Deve ser por isso que há bruxas e não bruxos. No fundo eu amo muito as mulheres e aprendo muito com elas. O que acontece é que minha condição de homem me impede aprender mais. Mas acho que as mulheres sabem viver melhor. Tenho três filhas e um filho. Minha filha de 22 anos tem uma maturidade de como se tivesse 40, 50. Meu filho homem tem 27 anos e é tão infantil, tão tonto que às vezes digo: filho, você é imbecil! Como se tivesse cinco anos... Dá muito mais trabalho criar um varão que uma fêmea. A mim me deu muito trabalho amadurecer. Deixar o machismo, que na verdade é uma forma de defender-nos para que a mulher não entre demasiado dentro de você. Deixar de lado esse machismo e compreender que era um machista, um tonto, me custou muitos anos. Ir analisando minhas atitudes... Algo que as mulheres compreendem cedo. Com 18 anos já entende quando um homem é um machista e não lhe convém.
    Tua literatura às vezes é qualificada como machista.
    P.J. - Sim, como racista também. O que sucede é que vivo em uma sociedade machista e racista e meus personagens são cubanos que vivem ali. São gente machista e racista, incluso entre os próprios negros. Quero refletir isso. Há críticos que me acusaram disso. Eu pessoalmente não sou, mas meus personagens, sim. Não posso edulcorar, maquiar. São como são. Creio que tenho leitores inteligentes que compreendem isso.
    O guaguancó, dança que você fala no livro, se parece com que?
    P.J. - Com nada. Entra dentro de um conjunto africano quase original, como o jembu, a rumba. Quase ninguém baila guaguancó hoje. Quando eu era pequeno, se bailava muito.
    Que é, uma dança sensual?
    P.J. - Sim, é como o galo e a galinha. A galinha, a mulher, se protege para que o galo, o homem, não a cubra. O homem vai bailando ao redor dela e vai tratando de seduzi-la, com um lenço.
    O Pedro Juan do livro diz que passou a vida inteira tentando controlar a raiva e o álcool. Isso tem a ver contigo?
    P.J. - Muito. Esses livros, desgraçadamente, são muito autobiográficos. Bebo bastante. Agora estou tentando controlar. Cheguei a ficar 30 dias sem beber nada. À base de muita força de vontade e ajuda espiritual também. Não gosto desses grupos, alcoólicos anônimos ou algo do gênero. Creio que os seres humanos temos capacidades espiritual e mental dentro que temos que desenvolver.
    Mas você bebeu muito a ponto de que?
    P.J. - Tanto a ponto de aos 16 anos, em um revéillon, cair em uma espécie de coma alcoólico durante 24 horas seguidas... E a partir daí, todos os fins de semana. Sempre fui uma pessoa muito divertida, de muitas festas, muitas mulheres. E sempre álcool. Depois tive outros comas de vomitar a bile. Há um ano e meio em um check-up o médico me disse que tinha triglicérides no fígado. A próxima etapa seria uma cirrose. Agora controlo bem.
    Já não bebe, não fuma... Está vivendo sem nada, nada?
    P.J. - Ainda tenho o sexo! E um pouquinho de uísque, às vezes, de tarde...
    Você ainda está envolvido com a santería (o candomblé cubano)?
    P.J. - Não, hoje me interessa mais o budismo.
    Sabe que eu acredito que tudo que você escreve é real, apesar de você dizer o contrário?
    P.J. - É real, mas não diga isso... Minha filha sempre que lê um livro meu diz: gostei muito, mas preferia que não tivesse sido você que escreveu...
    Sente vergonha?
    P.J. - Sim...
    As pessoas em geral também acreditam que tudo seja real, não?
    P.J. - Sim, mas também é uma questão de técnica. Você pode ter uma vida intensa, mas se você não tem a escrita como ofício não é convincente o que conta. Estive trabalhando como jornalista 26 anos, estou escrevendo quase sistematicamente desde que tinha 16 e começo a escrever com força aos 44. Quando publiquei a “Trilogia Suja” já tinha uma formação, tinha lido muito... Aos 16 decidi que seria escritor e que para isso não tinha que estudar literatura. Pensei: o que tenho de fazer é ter muitas mulheres, conhecer todo tipo de gente, viajar tudo o que possa, para conhecer o ser humano. Assim fui fazendo e nunca tive pressa de publicar, ao contrário. Escrevia poemas, contos e os escondia.
    Você tem uma autocrítica muito alta?
    P.J. - Sim, sou muito exigente comigo e com os demais. Às vezes é ruim ser tanto. Tenho centenas de poemas inéditos.
    Nunca escreveu nada sobre o Brasil?
    P.J. - Essa brasileira de Campinas aparece na “Trilogia Suja”. Mais ou menos como aconteceu, inclusive com uma lésbica, também brasileira, que estava apaixonada por ela. Era um triângulo amoroso. Depois essa lésbica andou publicando coisinhas contra mim na internet, que sou um machista miserável... Quando li, vi que era ela. Minha oponente! Filha da puta!
    Gosta da literatura dos cubanos que saíram?
    P.J. - Sim, há coisas interessantes. Severo Sarduy tem coisas bonitas. Algo de Cabrera Infante... Não posso falar de maneira geral. Há um livro que o mundo devia conhecer melhor, se chama “Boarding Home”, de Guillermo Rosales, está publicado na Espanha como “La Casa de los Náufragos”. Depois de cinco, seis anos, o autor se suicidou. É um romance de uma força incrível.
    Ou seja que é possível sair dali e continuar escrevendo...
    P.J. - Não sei. Desgraçadamente, se levamos uma vida muito prazerosa, é difícil ter algo que dizer. A literatura é pensamento, reflexão, análise. Se você está vivendo muito placidamente, creio que não tem muito o que pensar, o que refletir. Se vai viver numa favela, depois de quatro dias vai estar escrevendo algo forte. De acordo com a vida que você leva é como você escreve. Eu pinto e meus quadros aparentemente são abstratos, mas não são. São fragmentos do céu que estou vendo, da parede cheia de mofo, de sujeira, ladrilho com cor de ferro enferrujado. Pinto o que vejo e escrevo o que vivo.
    Mas você já não vive tão mal quanto antes... É por isso que agora passou às memórias?
    P.J. - Sim, agora estou mais tranqüilo. Talvez por isso recorde coisas da infância, da juventude, e estou pintando. E talvez por isso necessite parar um pouco, dois ou três anos. Me interessa revolucionar um pouco. Outro dia me perguntaram se não tinha medo de ficar preso a um estereótipo. Sim, claro que tenho. Então, creio que necessito parar.










    Escrito por cynara às 19h11
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    80 a 80

    Os caras nos anos 80 ficavam dizendo que era melhor viver 10 anos a mil do que mil anos a 10...
    E por que não 80 a 80? Nem tão devagar que entedie nem tão rápido que se arrebente na primeira curva.
    Tipo maluco-beleza. O Raul inventou esse troço mas ele mesmo nunca conseguiu ser.
    Eu sou.
    De tudo um pouco, devagarzinho.
    Diversão sim, fuga não.


    Escrito por cynara às 15h36
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