Coluna da VIP celebrando la dolce vita... é pra comer tudinho, viu?
Sacarina, estévia ou aspartame? Açúcar e afeto...
Mulheres vivem de dieta. Ô coisa chata! Não pode comer isso, não pode comer aquilo. Como é que os homens agüentam? Claro que não dá para comer tudo que a gente quer o tempo todo – o que, para gulosos assumidos como eu, seria o paraíso. Mas do açúcar não abro mão, não.
Como era mesmo? Ah: "De amarga basta a vida!" E dá-lhe açúcar para adoçar o café. (Tem gente que prefere tomá-lo amargo e retruca: "De doce basta a vida!" Imagina... Café sem açúcar, dança sem par, já dizia a canção.) Com a boca docinha, a vida docinha, a gente vai levando.
Açúcar cristal, refinado, mascavo – e metafórico também. Mas confesso que minha capacidade edulcorante às vezes esbarra na persistência do amargor – aquele sujeito sinistro que volta e meia desdobra uma esquina escura só para nos assustar com o berro: "Ei, a rapadura é doce, mas não é mole, viu?"
Um corpo que cai. O mundo que cai. O menino desabrigado na rua. A guerra. Peste, fome e carestia. A intolerância. A raiva – por que as pessoas têm tanta? Até mesmo uma manhã como essa, gris. Depende do dia: tem dias que a doçura desanda.
Eu, você, o homem que está cruzando a rua lá embaixo: quantas vezes não tentamos pôr açúcar num momento ruim, nosso ou de alguém querido? Alegramos amigos em situações difíceis, mandamos flores para parentes enfermos, fizemos surpresas só para minimizar um acontecimento ruim na existência de nossos amados. Mas, tristes de nós: tentar edulcorar a vida nem sempre funciona.
Às vezes é como usar um desses adoçantes artificiais, tão na moda em tempos de magreza absoluta: o suco azedo fica doce, é verdade, mas no finalzinho deixa um travo acre na boca... Ou como chupar lima-da-pérsia, que segundo minha mãe é amiga falsa: começa doce e termina amarga.
"É melzinho na chupeta!", dizem, sobre a vida, os mais safos. "Mamão com açúcar!!!" Quem dera: já imaginou se a gente pudesse passar a existência com um saquinho de mel, daqueles da infância, na boca? Uma bala de coco eterna, se dissolvendo aos pouquinhos, hein? "A vida não é bolinho!", rebateria outro, mais realista (e espírito de porco). Fico com o meio-termo: nem sempre bolinho, nem sempre melzinho.
Importante é aproveitar os pequenos bombons cotidianos e deixar o sabor permanecer na língua o máximo de tempo possível. Você já reparou como as melhores coisas da vida são baratinhas ou grátis? Cheiro de café sendo coado pela manhã; o nascer e o pôr-do-sol a cada dia; tomar banho de mar; subir uma montanha; ouvir uma boa história de alguém que você conheceu por acaso; receber um afago...
Pobres diabéticos do espírito. Deixar de comer açúcar de verdade, por problemas de saúde, não é nada perto de deixar-se amargar diante da dolce vita. Eu adoro açúcar, mas sei que não é preciso comê-lo pra que a vida fique mais doce. Tampouco se trata de viver de uma maneira "água-com-açúcar" ou "açucarada" – isso enjoa. E nem existe.
Brigadeiros existenciais para todos, é do que estou falando. De vez em quando, de vez em sempre, bom-bocados para os maus bocados: ir ao cinema ver um filme leve, andar a pé pelo bairro, almoçar com a namorada, ler um livro... Não engorda nadinha.