Chega de saudade
Coluninha na VIP desse mês. Tem um trocadilho aí pra bons entendedores... A ver quem acha. Outra coisa: depois que escrevi me dei conta que Woodstock foi no verão de 1969! Lá nos EUA, claro, aqui era inverno. Sorry, galera, Woodstock foi realmente tudo, mas também já passou! A ilustra é do Vitche.
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CHEGA DE SAUDADE! Ninguém agüenta mais tanto revival
Outro dia, no aeroporto, vi o anúncio da coleção de verão de uma dessas grifes estrangeiras que tanto os fúteis adoram. Tudo em inglês, claro, para iludir os jecas: Summer of... 1969! Uai, mas nós não estamos em 2006? E me dei conta de que vivemos num eterno túnel do tempo. Sempre para trás.
Pensando bem, tem a ver. As gerações atuais vivem mesmo um gap (salto no tempo) de 20 anos. Nos anos 80 sentia-se saudade dos 60. Nos 90, dos 70. Agora, nos 2000, tudo que já passou é considerado ótimo. É um mix de tendências, como diria um fashionista qualquer, com vocabulário inversamente proporcional à ânsia de copiar o que já foi feito. Quem diria que na tão aguardada era de Aquário estaríamos com os olhos postos no passado!
Fiquei curiosa. Como foi de fato o verão de 1969? Estariam os criadores daquele ano se inspirando no verão de 1949? Nana-nina-não. Eles tinham mais imaginação. Foi em julho daquele ano que o homem pisou na Lua pela primeira vez. Até por isso, não se falava de outra coisa senão do futuro.
As pessoas tinham esperança: o câncer está com os dias contados – anunciava uma revista. E a calvície também, prometia outra. Os robôs farão as tarefas domésticas!, exclamava uma. Amanhã você poderá viver na Lua, exagerava outra. Os cinemas exibiam Barbarella, Doutor Fantástico e 2001, Uma Odisséia no Espaço. Entre os livros mais vendidos, O Ano 2000, do apocalíptico Herman Kahn. A moda era futurística, andrógina. Unissex. É, já fomos modernérrimos. Hoje somos retrô.
Desde quando o ontem passou a ser amanhã? A letra incompreensível de Raul Seixas nunca pareceu tão arguta: “O hoje é apenas um furo no futuro por onde o passado começa a jorrar”. Talvez as pessoas busquem tanto o passado porque estão decepcionadas não com o futuro, mas com o presente. E fiquem catando lá atrás coisas boas de se reviver – como se o passado também não estivesse cheio de más notícias.
Sim, porque nesse mergulho em 1969, vi que: as chuvas já castigavam o país no verão, como agora; Israel estava em busca de uma paz impossível, como agora; a bomba atômica era uma ameaça, como agora. O câncer e a calvície não acabaram, mas em compensação a ditadura militar, a inflação e o cabelo mod, sim! Ops, eu disse mod? Esqueci que esse penteado ridículo também teve revival...
O revival é uma espécie de ilusão coletiva: vamos fingir que já houve épocas muito mais incríveis e que nós continuamos nela. Vamos ignorar tudo que está acontecendo neste momento e nos fixar nas costeletas e nas calças Saint-Tropez. Por favor, joga mais glitter para iluminar este presente obscuro!
Pois eu curto pensar que o passado era um barato, mas que haverá milhões de coisas interessantes mais adiante além de gadgets eletrônicos bobos. Quem imaginaria, por exemplo, estar vivo para ver a queda do Muro de Berlim? Em 1988 ele estava lá, sólido, intransponível. Em 1989 caiu! O futuro também pode trazer boas surpresas, não só ruins.
Adoro fazer planos. Adoro novidades. Adoro olhar pra frente e imaginar que, apesar do aquecimento global ou de George W. Bush, ainda estarei viva para ver maravilhas neste planeta. Automóveis movidos por energia solar. Patinetes flutuantes. Visões de Marte. Paz no mundo. Ou até coisas “menores” como ver meu filho crescer.
Que passado que nada. Sinto saudade é do futuro.
Escrito por cynara às 15h30
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