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Millene Glüpchen
Coluninha-conto na VIP desse mês (ilustra Omar Grassetti). Digam aí que tal a incursão pelo universo ficcional...
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MILLENE GLÜPCHEN CONTINHO ANTIANORÉXICO PARA ESTÔMAGOS FORTES
Mal terminou de devorar o prato de alface, tomate cereja, rúcula e palmito pupunha grelhado, Millene Glüpchen sentiu um fastio daqueles. A barriga empanzinada, como se fosse explodir. Não conseguia nem pensar em sobremesa, ainda que estivesse com um desejo enorme de comer uma gelatina diet. Ou frozen iogurte.
Tantos anos na carreira de modelo, tantas refeições parcas, folhas, folhas e mais folhas tinham que dar nisso: seu estômago murchou. Ficou pequenino. Satisfazia-se com qualquer grãozinho de pistache. Ela lembrava com lágrimas nos olhos da vida antes dos 13, quando ainda era só uma guria loira e pernalta, desengonçada como uma ema, correndo pelos pampas.
Chegava em casa e se empanturrava de polenta frita fresquinha, recém-preparada pela mãe. Nas churrascadas fartas dos finais de semana, repetia o prato de arroz-de-carreteiro, maionese de batata e picanha até a barriga doer, mas não a ponto de rejeitar o sagu ao vinho. Depois do concurso, acabou-se o que era doce.
Houve recompensas, claro. Primeiro a temporada no Japão – ela, que nunca tinha saído da cidadezinha na fronteira com o Uruguai, ficou deslumbrada com os megaletreiros em néon. O negócio engrenou e daí para as passarelas internacionais – Paris, Nova York, Milão – foi um pulo. A menina tinha talento.
Agora, aos 26, a vida passava como um filme diante do prato vazio, lambuzado de vinagre balsâmico. Já tinha ganhado muito dinheiro, sim, era rica. Podia até se dar ao luxo de parar e não trabalhar nunca mais. Pensando bem, por que não?
SEGUNDA PARTE
No consultório do cirurgião famoso, Millene rói as unhas. Está mais bronzeada e apenas alguns gramas menos delgada do que no ano anterior. O médico faz as perguntas de praxe: peso, altura, algum caso de câncer na família? Pressão alta?
– Então, o que você tem em mente? – Eu quero fazer aquela cirurgia do estômago. – Redução? Mas você já é magra! – Não, doutor, quero aumentar meu estômago. O máximo possível.
Passado o pós-operatório, Millene pôs seu plano em ação. Começou com as delícias de infância: durante meses, visitou diariamente todas as churrascarias rodízio da cidade, almoço e janta. A mãe mandava do Sul porções generosas de polenta caseira congelada, que a empregada fritava como lanchinho entre as refeições.
Daí partiu para a pujança dos pratos mais pesados da culinária mundial: rabada, feijoada, cassoulet, dobradinha, lasanha, goulash. Em seguida, as variedades mais calóricas das cozinhas regionais brasileiras: leitão à pururuca com feijão-tropeiro, sarapatel, mocotó, barreado, buchada de bode, vatapá, maniçoba. Almoço e janta.
Por fim, a doçaria das mais diversas partes do planeta. Ovos moles, toucinhos-do-céu, pastéis de Belém, fatias de Braga. Tiramisus, panetones, zeppoles, sfogliatellas, zabaiones, canolis sicilianos. Haleus, mil-folhas, malabies, ninhos de nozes. Cocadas, beijus, bolos recheados, ambrosias, pavês, mousses, frutas em compotas, doces de leite, goiabadas, bananadas, alfenins.
No dia em que foi hospitalizada, pesava mais de 200 quilos. Era muito, mesmo para seu 1,80 m de altura. Já não se locomovia, mal saía de casa. Se na época de modelo não saía da cama por menos de 100 mil dólares, no final só se levantava por razões mais substanciosas. Uma coxinha de galinha, por exemplo. Melhor dizendo, uma dúzia.
Suas últimas palavras, diante de uma travessa de brigadeiros, foram:
– Ah, só mais um, vai.
Deu um pequeno arroto (era gorda, não mal-educada) e morreu.
Escrito por cynara às 15h55
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