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    O ROCK ERROU?

    Provocando a roqueirada... Coluna da VIP de maio com ilustra do Andrei Duarte.

    ***

    O ROCK ERROU?
    GLAMOURIZAR A INÉRCIA NÃO É REBELDE, É CAFONA

    Fico procurando culpados por essa geração de molóides que passa o dia em frente ao computador deixando a bunda crescer e a barriga estufar para fora da calça. Sim, estou falando dos nerds (ou geeks, como são chamados agora). Dos seus cabelos oleosos. De sua pele idem. De sua imensa preguiça para qualquer coisa que não seja tecnologia ou comida em domicílio.

    Quem levou esses pobres coitados a tal situação? Se eu for pelo caminho mais fácil, direi que tudo começou com a televisão. Pais ocupados demais, o dia todo fora, crianças à mercê da babá eletrônica... Bingo. Também poderia culpar o computador, a internet, o palmtop... Sei lá.

    Mas prefiro culpar o rock and roll. Foi o rock quem primeiro glamourizou a inércia. Foi o rock quem inventou que odiar o dia e ter olheiras é que era cool. Foi o rock quem começou a sugerir como modelos para a juventude pessoas largadonas no sofá, fumando, bebendo e sendo aduladas pelas fãs, tratadas a pão-de-ló como garotos mimados. Putz, e isso não é o máximo? Eu também costumava pensar assim, confesso.

    Só que, reparando bem, subliminarmente o rock funcionou como o mais eficaz veículo para transmissão da mensagem burra de que o legal na vida é ficar doidão, pálido, com a saúde fodida e se possível morrer logo. Como se a melhor parte do rock não fosse a música em si (ou dançá-la!), mas sim a falta de cuidado com o próprio corpo.

    BE GOOD, JOHNNY
    Você pode estar pensando que vou fazer um discurso careta contra o rock. Não, adoro rock. Principalmente punk rock. Aliás, minha banda preferida, The Clash, acabou porque o baterista se drogava demais... Mas não é esse o ponto.

    O ponto é que o rock sempre esteve ligado a comportamentos pouco saudáveis – para dizer o mínimo –, e tenho cá minhas dúvidas se a genialidade das músicas foi mesmo resultado desses excessos, como alguns chegam a defender. É óbvio que a rebeldia faz parte do rock and roll. Não seguir os padrões vigentes; vociferar contra o establishment; até mesmo odiar o governo e a polícia. Detonar o corpo? Que que tem a ver uma coisa com a outra?

    A verdade é que esse comportamento autodestrutivo já era, só não vê quem não quer. É cafona. Repare nos roqueiros que não morreram de overdose: tá todo mundo arrependidão, tentando salvar o que sobrou dos seus corpos maltratados, apelando para bronzeados artificiais, malhando feito condenados como não fizeram a vida inteira (isso sem falar nas plásticas, lipoaspirações e implantes de cabelo). Taí o Iggy Pop que não me deixa mentir.

    Ou então continuam supermalucões – e megadecadentes, tipo o Ozzy Osbourne, que só vive bolado de calmante. E que dizer do Keith Richards, que cheirou as cinzas do pai? Crianças, não repitam em casa... O mais engraçado é que o cara tido como o pai do rock, Chuck Berry, está vivo e bem aos 80 anos. Dou risada quando leio que a coisa que ele considera mais importante na vida é a saúde! Pesquiso e vejo que Chuck foi preso algumas vezes em sua longa carreira por seus problemas com... mulheres! Danadinho.

    Gostaria de poder ser influente como um rock star para dizer aos quatro ventos: deixe esse computador de lado, mova esse traseiro gordo, saia para dar uma volta pelo bairro, estique as pernas. Tome um pouco de sol nesse corpo branquelo. Vá jogar bola. Ande de bicicleta. Nade. É bom também para a cabeça, sabia? Ou pelo menos faça como o velho Chuck: vá transar! Sexo só faz bem. Drogas? Endorfina, babe. Rock and roll? Mais no iPod e menos em seu estilo de vida.



    Escrito por cynara às 19h25
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