Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Mulher



Histórico


    Votação
     Dê uma nota para meu blog


    Outros sites
     Lea Dorf
     Ronaldo Bressane


     
    cultura loser & filosofia barata


    Cláudio Assis, o homem, o mito

    Pode-se concordar ou discordar do cineasta pernambucano Cláudio Assis, o Claudão. Mas é inegável o talento do homem para gerar polêmica. Não é meu tipo de filme o que ele faz, digo logo. Mas a opção de Claudão por incitar platéias a refletir é interessante _e, pelo que pude sentir, legítima. Anacrônica, talvez, mas legítima.

    Fiz essa entrevista originalmente para a VIP. Por problemas de espaço, saiu pequena. Achei que vocês gostariam de ler um pouquinho mais...

    Eis o cabra.

    ***

     

    Dizem que no Brasil só rico ou filho de rico se torna cineasta. É verdade?

    Não é só no Brasil, é uma questão da arte cinematográfica: em outros países é um pouco diferente, mas via de regra ela é uma arte burguesa. Não se faz um filme com menos de 1 milhão de reais.

    É mais fácil para um Moreira Salles do que para um Assis...

    Lógico. Mas não é uma questão de predestinação, e sim de correr atrás do seu objetivo. Se alguém contar pra você minha história, vai pensar que é mentira. Fui operário, rocei mato com a estrovenga, fui cozinheiro dos operários do departamento de estradas e rodagens. Estudava de noite: fiz economia, depois deixei pra fazer comunicação. Aprendi a fazer cinema na porrada, carregando mala, tripé, câmera...

    O Karim Aïnouz disse aqui na VIP que para um pobre é quase impossível fazer cinema.

    Batalhando dá, tudo dá, desde que você seja honesto, que lute, seja perseverante, não venda sua alma ao diabo. Já me perguntaram: "Você venderia sua alma ao diabo?" O que é o diabo, o cinema de Hollywood? Não, o diabo é muito melhor do que Hollywood.

    Se te convidassem pra filmar em Hollywood você não iria?

    Jamais, jamais, jamais.

    E num esquema independente, tipo Sundance?

    Nem isso. Não vai dar tempo! Tenho muita história pra contar aqui, com meu povo. Lá qualquer pessoa se vende, é obrigado. Tem história no cinema, não vou citar nomes, onde os produtores dizem: "Não quero essa montagem, quero essa". Aí carrega o filme pra Europa, pros Estados Unidos, pra remontar... Não quero essa coisa. Quem manda no meu filme sou eu, eu mando 100%. É 100% meu. Não escrevo filmes pra concorrer a uma vaga no Oscar. E não vou pros Estados Unidos, um país nazista, que não respeita ninguém.

    Você enriqueceu fazendo cinema?

    É engraçado: quando sai que Cláudio Assis ganhou um milhão, todo mundo pensa que fiquei rico. Mas eu ganhei pra fazer o filme! Fica todo mundo da família: "Rapaz, Claudão agora é um cara rico!" Aí ganho 200 mil da Petrobras: "Pô, 200 mil???" É pra fazer o segundo filme, gente. Pra explicar que não ganhei esse dinheiro...

    Mas dá para sobreviver?

    Sim. Nunca fiz publicidade, nem vou fazer. Ganhei vários prêmios em dinheiro em festivais, uma grana boa pra quem bebe cerveja – só não bebo cachaça, mas tomo Teacher’s... Gasto meu dinheiro todinho com meus filmes. Já podia comprar apartamento, mas não. Logo, logo, vou conseguir algum trocado com esse de novo. Meu carro é aquele Mercedes 1967 do Amarelo Manga. Tenho um Mercedes! Que é lindo, quando passo todo mundo olha. Se passasse com outro carro ninguém olhava, mas como é um Mercedes... Enfim, dá pra viver.

    Você faz filme para o público ou pra ganhar festival?

    Não vou dizer que não gosto de ganhar prêmio. Lógico que é bom ter reconhecimento, mas não é pra isso que faço, nem para a crítica. O filme se completa quando o povo vê, aí você sabe se é bom ou não. Faço filme pro povo, pra discutir com o povo. Mas para quem faz filme de baixo orçamento, que não tem dinheiro para pagar 4 milhões de publicidade, esses prêmios são excelentes, porque viram uma mídia gratuita, espontânea.

    Seus filmes não são palatáveis pra ter propaganda no horário nobre.

    O que é palatável? Caixa-Dois, Ó Paí, Ó? Realmente quem gosta desses filmes não vai gostar de Baixio, porque se gostarem são incoerentes.

    A TV não vai oferecer um horário gratuito para divulgar seu filme...

    Não vai porque tem o compromisso de viciar o olhar, de dominar, de fazer com que as pessoas sejam todas tapadas, não tenham compreensão da vida. Por isso não querem Amarelo Manga, Baixio, os filmes do Beto Brant, filmes que façam pensar. Eu só acredito em filmes que façam pensar.

    Mas o povão vai ver seus filmes?

    Botei meu filme a 1 real no Recife, foram 13 mil em nove dias. Dizem que o povo não gosta de cinema, de música clássica... Bota na praça pública pra ver se o povo não vai ver!

    E gostam, não ficam chocados?

    Chocados com o quê? A vida é pior, a realidade é muito pior.

    Pra mim há uma incoerência: seu filme é muito mais visto por essa elite que você critica do que pelo povo.

    Infelizmente a culpa não é minha.

    Você prefere o sucesso da crítica do que o de público?

    Não vou ser filho da puta, escroto, hipócrita, pra dizer que não gosto da crítica, já ganhei vários prêmios da crítica. Mas se for pra escolher, prefiro o de público, sem sombra de dúvida. A crítica ajuda que o povo veja.



    Escrito por cynara às 14h54
    [] [envie esta mensagem] []



    Claudão 2

    Já se falou em estética da fome e em cosmética da fome. Como você define seu cinema?

    É a estética da impunidade. No Brasil, não é de hoje, nós vivemos a impunidade no Legislativo, no Executivo, no Judiciário, na violência com a mulher, no social, no cotidiano. E o que estamos falando em Baixio das Bestas é isso. Me perguntam: por que aqueles agroboys que tanto maltratam as mulheres, não respeitam ninguém, não são punidos, não têm redenção? Ué, por que a gente tem que redimir só no cinema?

    Ao mesmo tempo que o espectador rejeita a violência sexual contra a menina de 13 anos do filme também a deseja, não é?

    O homem não olha pro pau do outro quando vai no banheiro? A mulher não olha pra braguilha do homem pra ver que tamanho é o pau dele? Isso é do ser humano, não adianta vir dizer que não é. Um dos fundadores do festival de Roterdã me disse o seguinte: "Quero agradecer pelo seu filme por uma coisa. Senti desejo por aquela menina, seu filme me permitiu isso. Percebi que dentro de mim também há um filho da puta". Todo ser humano é capaz de sentir algo assim.

    Você é pervertido?

    Não, me acho normal.

    Como enfrenta as acusações de pervertido?

    O que é ser pervertido? Se eu for dar ouvidos ao que falam de mim... Quem não vê que ali tem uma denúncia séria é porque vira a cara para os povos. Perversão é ignorar isso.

    Você acha mesmo o Hector Babenco um imbecil, como já disse?

    Não o acho um imbecil, mas ele teve uma atitude de imbecil ao dizer em Mar del Plata (Argentina) que nós brasileiros éramos idiotas, que aqui era republiqueta de bananas. Não posso entrar na sua casa, comer sua comida, sua mulher, seu marido, pegar seu dinheiro e dizer que você é um idiota! Como assim? Oxente! Menos...

    Ao contrário de seus personagens, você trata bem as mulheres?

    Pergunte a elas. Todas as mulheres que já amei um dia são minhas amigas. Não tenho inimizade com nenhuma. E nem com os maridos delas, são todos meus amigos. Amo demais as mulheres.

    Não é misógino, como o acusam?

    Não sou, nem meu filme é; os personagens é que são. Eu, meu filme, jamais. Muito pelo contrário.

    Dizem que os nordestinos são machistas. Você é?

    Não são os nordestinos: todo homem é machista. Quem posar que é liberal é porra nenhuma. Não se muda o pensamento da sociedade da noite pro dia. E não são só os brasileiros, não. A sociedade como um todo, o planeta. Deus é homem, Jesus é homem, Buda é homem. Vivemos numa sociedade onde o homem é que manda. Podemos ter atitudes onde a gente pode se policiar e mudar o relacionamento nosso, particular, mas somos criados dessa maneira. E é a mulher que cria o homem, ela também é machista.

    As mulheres passaram a dar mais mole pra você depois da fama?

    No cinema as pessoas têm uma brincadeira que diz o seguinte: o curta-metragista tem o pau pequeno; quando você faz um longa seu pau cresce... A vida foi generosa comigo. Sou um cara feio e pobre, mas nunca tive problema de amar as mulheres. Então é indiferente pra mim. Lógico que tem umas que ficam: ah, ele é um cineasta, é o diretor. Mas sou a mesma pessoa, não mudei nada.

    Mas falam que diretor de cinema come muita mulher...

    Não, quem come muita mulher, segundo a teoria, é bailarino macho. É difícil ter bailarino macho, mas quando tem... Ator macho também. Depois vem os fotógrafos e depois é que vem o diretor, lá na quinta escala...

     



    Escrito por cynara às 14h45
    [] [envie esta mensagem] []



    Claudão - parte 3

    Como você vê seu primeiro filme, Amarelo Manga, hoje?

    Acho um filme necessário, elegante, curioso. Hoje gosto mais dele do que gostava. Olho pra ele assim: pô, bicho, tu é legal, hein, cara?

    Acha que melhorou como cineasta?

    Acho que o Baixio das Bestas é mais centrado, não tem respiração. É mais focado porque no Amarelo a gente busca o ser humano num universo cosmopolita, de uma grande cidade. No Baixio a gente volta o olhar pra aldeia, mesmo, pro ser humano ali enterrado. A gente está falando de um ser humano degradado, escravizado, destruído pela monocultura da cana-de-açúcar. Ele é mais cinema mesmo, é mais: preste atenção, preste atenção... Preste atenção, caralho! O próximo vai ser na cidade de novo, A Febre do Rato. Um marginal que ama as mulheres, mulheres da terceira idade. Vou discutir o sexo na terceira idade.

    Você sempre vai fazer pontas em seus filmes tipo o Hitchcock?

    Sempre.

    Gosta da fama?

    Gosto de poder realizar, de ser um realizador, de conquistar espaço, de poder fazer meu próximo filme. Fama? Não sei o que é isso. Teve um dia que me pediram autógrafo e me senti ridículo.

    Você disse que o ser humano é somente estômago e sexo. Acha mesmo isso?

    Sem dúvida. O ser humano vive permanentemente para comer. Você olha e tá todo mundo comendo, mastigando, é chiclete, é doce... O cara tá jogando futebol e tá comendo! Todo mundo só vive em função disso. Uns só comem e engordam e a cabeça diminui. Outros comem porque querem comer o outro. Quando não querem comer literalmente, comem ideologicamente. O ser humano é perverso, só quer comer.

    Então comer e trepar não são bons?

    Sou um ser contraditório... Comer é bom e trepar é melhor ainda! Mas prefiro trepar do que comer.

    E prefere beber ou trepar?

    Lógico que é trepar. No dia que meu pau parar de subir vou parar de beber!

    Você se considera de esquerda?

    Sou um homem de esquerda. Sempre me guiei, desde criança, pelo poema do Drummond: "vai ser gauche na vida". Não é ser comunista, marxista, socialista. A questão é: você concorda ou não com as injustiças sociais? Concorda ou não com a destruição do planeta? Agora, se for pra escolher, lógico que sou do lado do Marx, do Lenin. Fica tu do lado do Bush!

    Como diz o personagem de seu filme, cinema é bom porque dá pra fazer o que quiser?

    Cada um faz o cinema que quer. Eu não pinto porcelana. Sou de Caruaru, meu cinema vem do barro, do povo, é plugado no social. Minha arte é pra discutir, provocar – não no sentido de ter repúdio, mas no de dialogar e reagir às mazelas que existem nesse mundo. É por isso que faço cinema. Senão vendia arma, tênis, giz.

    Você quer fazer a revolução pelo cinema, é?

    Lógico! Minha metralhadora é a câmera.

     

     



    Escrito por cynara às 14h41
    [] [envie esta mensagem] []




    [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]